O segredo
Dor de cabeça, gripe, manhã de segunda, Garfield, espreguiço a alma e vou trabalhar. Minha mãe tem lido “O Segredo”, por indicação de uma vizinha. Quando ela pediu para comprar, confesso, torci o nariz. Mas a verdade é que o livro faz milagres. Minha mãe voltou a fazer planos e a desejar coisas. Até a saúde melhorou. “Cuidado com o que você deseja, porque você pode conseguir”. Parece uma máxima chinesa. É apenas a propaganda de um filme banalíssimo dos anos 80, “A Dama de Vermelho”. Se acredito na lei da atração? Não sei se alguém pode simplesmente aprender a desejar. Trata-se de mobilizar uma força mental estupenda. Não é como valer bem pouco (e saber disso) e vender-se aos outros como um produto raro e caríssimo. É algo bem maior e envolve uma noção precisa daquilo que se é (ainda que pouco) e daquilo que se quer (por maior que pareça).
Para minha mãe
Quando ontem adormeci
Na noite de São João
Havia alegria e rumor
Estrondos de bombas luzes de Bengala
Vozes, cantigas e risos
Ao pé das fogueiras acesas.
No meio da noite despertei
Não ouvi mais vozes nem risos
Apenas balões
Passavam, errantes
Silenciosamente
Apenas de vez em quando
O ruído de um bonde
Cortava o silêncio
Como um túnel.
Onde estavam os que há pouco
Dançavam
Cantavam
E riam
Ao pé das fogueiras acesas?
— Estavam todos dormindo
Estavam todos deitados
Dormindo
Profundamente.
(Este poema de Manuel Bandeira resume bem o sentimento de minha mãe em relação ao São João, quando ela lembra de meus avós na fazenda e das grandes festas celebradas em sua infância).
E o grande vencedor foi… Pee Wee Martini
No ano passado, ele ficou em segundo lugar. Desta vez, não teve pra ninguém. O cristado chinês Pee Wee Martini deixou todos os favoritos para trás e foi eleito o cão mais feio do planeta. E já virou celebridade: tem até página no myspace. Olha a língua, Marcus (acho que contou pontos a favor). Aliás, a cara dele parece um quadro de Picasso.
O mais feio de 2008
Como publicamos aqui no “Madame” o resultado do concurso do ano passado, vencido por Elwood (o galã aí de cima), resolvemos presentear nossos visitantes com as fotos de três dos finalistas da edição 2008 do cão mais feio do mundo (pescadas no G1). Os favoritos são Squiggy, Rascal e Buster, essas figurinhas fofas aí embaixo. O vencedor será conhecido amanhã.
Minha pedra é ametista
Um dia cheio. Idéias tomando a forma de páginas coloridas. Volto pra casa. Preciso levar meu carro ao conserto. Aliás, não me faltam consertos. Alguém, aí, quer comprar uma geladeira? Minha sobrinha de 10 anos está gripada. Minha irmã está tendo aulas na faculdade de direito. Meu cunhado passa e a deixa conosco. Damos meia novalgina para a febre. Assistimos, juntas, séries no Nickelodeon. Minha sobrinha dorme antes da novela. Não gosto do nome, “A Favorita”, mas gosto do enredo. Sinceramente, acho que João Emanuel Carneiro é um cara corajoso. Estrear no horário nobre da Globo com trama tão brega. As protagonistas são cantoras sertanejas que formavam uma dupla e, hoje, são inimigas. Gênio. E a nova trama de Tiago Santiago na Record? Continuação de “Caminhos do Coração”, repleta de mutantes toscos. Alcançou 30 pontos fácil, fácil. Os tempos são outros. Há uma geração de novos autores, na faixa dos 40, surgindo, mas não exatamente renovando a teledramaturgia. Sou apaixonada por novelas desde criança e acompanhei de perto, capítulo por capítulo, a trajetória de sucesso da maior autora brasileira do gênero. Não me considero saudosista, mas adoro rever as aberturas. E está tudo lá, no baú do Youtube. Além das aberturas, cenas marcantes de quase todas. Achei até essa, trama fantástica, música de João Bosco: “O Astro”, de Janete Clair, que fez o Brasil o ficar intrigado diante do assassinato do milionário Salomão Ayala (Dionísio Azevedo).
Louis Vuitton
Fui ver “Sex and the city” no sábado, após o trabalho. Pela primeira vez, deixei a sala antes do fim da sessão. Não exatamente por causa do filme, embora ele seja bem ruim. Também estava meio chateada e isso conta. Para engolir tanta futilidade sem qualquer enredo é preciso estar feliz. Aí você até acha graça da música doce que entra quando Carrie (Sarah Jessica Parker) dá uma bolsa Louis Vuitton para sua assistente, Louise (Jennifer Hudson), que vivia alugando acessórios. Eu só reparei em como as atrizes estão envelhecidas, especialmente Cynthia Nixon. Alguns closes são impiedosos com rugas e vincos ao redor da boca. Saí do cinema achando que algumas pessoas podem ser tão falsamente elegantes quanto as bolsas Louis Vuitton vendidas no Centro de Convenções por R$ 100. E passamos dos 20 mil acessos, de novembro do ano passado até agora. Sim, eu sei que tem blog que registra isso por dia. Bom para eles.
Sobre homens e abutres
Achei o trailer de um dos filmes de que mais gosto (perdi a conta de quantas vezes assisti). “Ace in the Hole”, de Billy Wilder, foi exibido no Brasil como “A Montanha dos Sete Abutres”. O que mais curto no Youtube é o que ele guarda em seu baú de quinquilharias.
Bolo de milho, poesia e prosa boa
Sexta-feira, 13, dia de Santo Antônio. Fui ajudar na montagem do blog de Luís, mas acabamos apenas tomando café com um bolo de milho inacreditavelmente delicioso. Conosco estavam Lima Trindade, da Verbo 21, e Gerana Damulakis, do Leitora Crítica, minha madrinha literária. Terminamos a noite com um recital improvisado na sala do apartamento (Sá Carneiro, João Cabral de Melo Neto e Fernando Pessoa). Também falamos sobre livros marcantes, poetas queridos e autores indispensáveis em qualquer repertório, de Salinger a Dostoiévski. Gerana e Luís leram bem mais que eu. Fiquei arrepiada com “A mulher e a casa”, poema de Cabral que eu não conhecia e que Luís recitou. Vale ler ou reler. Publico aqui. E, lentamente, o “Madame” chega aos 20 mil acessos, de novembro de 2007 até agora.
A mulher e a casa
Tua sedução é menos
de mulher do que de casa:
pois vem de como é por dentro
ou por detrás da fachada.
Mesmo quando ela possui
tua plácida elegância,
esse teu reboco claro,
riso franco de varandas,
uma casa não é nunca
só para ser contemplada;
melhor: somente por dentro
é possível contemplá-la.
Seduz pelo que é dentro,
ou será, quando se abra;
pelo que pode ser dentro
de suas paredes fechadas;
pelo que dentro fizeram
com seus vazios, com o nada;
pelos espaços de dentro,
não pelo que dentro guarda;
pelos espaços de dentro:
pelos recintos, suas áreas,
organizando-se dentro
em corredores e salas,
os quais sugerindo ao homem
estâncias aconchegadas,
paredes bem revestidas
ou recessos bons de cavas,
exercem sobre esse homem
efeito igual ao que causas:
a vontade de corrê-la
por dentro, de visitá-la.






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