Kátia Borges

Posts de Maio, 2008

Manuel, meu amigo imaginário

In Divagações on Maio 31, 2008 at 5:12 pm

Chove fino em Salvador neste último sábado de maio. E eu pensando em cerveja e em comida de botequim. E no São João, essa festa melancolicamente alegre. Como no poema de Bandeira que li criança em “Estrela da Vida Inteira”, livro que ainda guardo comigo, mesmo velhíssimo e sem a capa. Manuel, meu amigo imaginário, meu porquinho da índia, meu querido. Chove fino em Salvador neste último sábado de maio. E eu quero muito que a vida siga seu rumo. Ah, eu quero muito encontrar um lugar legal, com chopp gelado e petiscos quentes, para ir depois do trabalho…

O congresso internacional do medo

In Divagações on Maio 30, 2008 at 1:14 pm

Ai, querido, estou quieta. E durmo enrolando os cabelos. Me ponho no sonho ou pesadelo. Ai, querido, esta vida tem me dado tanto. Se faço uma lista, fico besta. Não como do lixo, não tiro meu sustento do lixo. Apenas sigo. E seguir é tudo. De mais verdadeiro e de mais bonito. E, enquanto sigo, aprecio a paisagem do mundo. Não é Google Earth. É a vida mesmo, com sua beleza e monstruosidade. Não pretendo parar de escrever. Prefiro Rilke a Pécora. E perco sempre o prazo de inscrição no Congresso Internacional do Medo.

Fragmento de um poema de Ginsberg (para E.)

In poesia on Maio 28, 2008 at 9:59 pm

O peso do mundo
é o amor.
Sob o fardo
da solidão,
sob o fardo
da insatisfação,

o peso.
o peso que carregamos
é o amor.

Quem poderia negá-lo?
Em sonhos
nos toca
o corpo,
em pensamentos
constrói
um milagre,
na imaginação
aflige-se
até tornar-se
humano –

sai para fora do coração
ardendo de pureza –

pois o fardo da vida
é o amor,

mas nós carregamos o peso,
cansados,
e, assim, temos que descansar
nos braços do amor,
finalmente
temos que descansar nos braços
do amor.

Só a ignorância me acompanha

In poesia on Maio 24, 2008 at 4:45 pm

Nada sei de rimas ou de poesia, Martha/Maria.
Só a ignorância me acompanha,

e uma brisa de infinita sabedoria
é o que mantém suspensa no papel a frágil tinta

em águas turvas
- tenho visto tantas vezes afogar-se meu lirismo -

e aquela flor, triste/raríssima, cultivada com cuidado
no vaso onde jaz o que não sei de rimas.

Ah, o meu lirismo -
e toda poesia – voltarão singelamente ao nada

algum dia, este lugar sagrado no qual repousam
versos que respiram imperfeitamente.

Ah, sim, por mais que digam e por mais que tentem
me convencer de que esta rosa é cardo agreste.

Essa doeu

In Divagações on Maio 22, 2008 at 1:30 am

Estou ouvindo horrores um disco de 1995 do “Nouvelle Cuisine”. O título é “Novelhonovo” e traz canções deliciosas. Há três anos, quando mudei para este apartamento, joguei no maleiro do guarda-roupas uns seiscentos CDs. Não tenho mais vinil, um único. Dei os últimos ao pedreiro que fez a reforma da casa antiga na Cidade Baixa. “Hatful of Hollow”, dos Smiths. “Fruto Proibido”, de Rita Lee, “Dois”, da Legião Urbana, e “Cheap Thrills”, de Joplin. Essa doeu, embora eu tenha um montão de gravações remasterizadas, incluindo a caixa que a Sony Music lançou e que traz várias faixas-bônus com sobras de estúdio. Algumas são inacreditavelmente ruins e ainda assim preciosas. Não vivo sem Janis desde os 14 anos.

E se chover?

In Música, Vídeos on Maio 21, 2008 at 12:57 am

Foto: Marina Novelli | Divulgação

Muito bacana o “Dois em um”, formado por Luisão Pereira, baiano, e Fernanda Monteiro, carioca. Li uma matéria sobre eles em “A TARDE”, assinada por Chico Castro Jr. Já conhecia o som do casal do Myspace. Gosto do clipe da canção, e da canção, “E se chover?” O desenho do clipe é de Michael Dudok de Wit (“Father and Daughter”), que ganhou o Oscar de melhor curta de animação em 2000. Ia postar, mas ficou lento demais para executar. Curiosos e fãs podem clicar aqui.

Zélia e Jorge

In Livros on Maio 18, 2008 at 8:38 pm

Foto: Adriana Lorete

Ao saber da morte de Zélia Gattai, fiquei triste e lembrei a última entrevista que fiz com ela para A TARDE. Já morando no Horto Florestal, a escritora me recebeu com simpatia no amplo apartamento e conversamos longamente. Zélia Fez questão de me mostrar os cômodos, como se eu fosse uma visita, e, com o talento de contadora de histórias que a tornou famosa, recordou algumas peripécias de Jorge, com especial destaque para a divertida amizade que o autor baiano manteve com Pablo Neruda. Saí de lá entristecida por ter presenciado, ainda que de modo breve, e sempre por força da profissão, três momentos diversos da vida daquele casal. No primeiro, ainda foca, entrevistei Jorge Amado para o jornalzinho da Coelba. No segundo, já profissional, ao entrevistar Zélia, na Rua Alagoinhas, para A TARDE, não consegui tirar os olhos de Jorge, deitado numa espreguiçadeira, quase cego e muito deprimido. E, finalmente, este último, no Horto, conversando com ela, já viúva, longe da casa do Rio Vermelho, mas cercada por lembranças materiais e imateriais. Espero sinceramente, embora saiba que muitos discordam, que o jardim, onde estarão agora as cinzas dos dois, seja considerado solo culturalmente sagrado na Bahia

Tanto veneno, meu Deus!

In Teatro on Maio 14, 2008 at 9:49 pm

E, então, eu seguro o pequeno animal peçonhento entre os dedos como se ele fosse um tesouro. Um único escorpião amarelo pode gerar até 40 outros. E sem necessidade de macho. Duas crias em um ano, 20 filhotes em cada cria. Uma espécie formada apenas por fêmeas, na qual os óvulos se desenvolvem sem fecundação. De repente, eu deixo o bicho cair no chão e outros escorpiões saem rapidamente dos esconderijos. Estão famintos, devoram-se uns aos outros. Acendo um cigarro e fico observando. Tanto veneno, meu Deus!

Sobrevivi aos 15 anos. E, assim como os escorpiões amarelos, criei hábitos noturnos e crepusculares. Uma dose de álcool, algum fumo. Coisas normais para quem traz um ferrão cravado no peito. Casei, acasalei, emudeci, gritei durante os partos. Sou uma mulher absolutamente comum. Do tipo que prepara lanches deliciosos para os filhos, joga buraco com os amigos e faz amor duas vezes por semana com o marido. Olhem meus braços. Não há sinal de ferroadas. A cada manhã, escapo inteira do mesmo sonho.

Mas não contei o sonho inteiro. Há nele “uma ternura venenosa de tão funda”. E o medo. O medo que sinto de mim mesma. A visão que tenho de meus filhos mortos. A sensação em que me afundo ao olhar o céu. E o desabar de uma chuva que parece varrer o mundo. E que não cessa até que ela surja. Turva. Primeiro, vem bem menina e me puxa pela mão para ver o mar. Depois, quase adulta, tenta me afogar para que eu não diga nada sobre o que sinto. E, no entanto, sempre fomos cúmplices numa forma indescritível de sentimento.

E até nessa falta de dor, espécie de anestesia que dura desde o casamento. Olho a minha casa, cheirando a pinho, e acho tudo muito bom. Como se a família fosse um esconderijo. Ninguém pode me ferir aqui no Caminho das Árvores. E, nas copas, avisto as damas que se assumem. Passam por mim no mercado, de mãos dadas, cheirando as frutas, mastigando as uvas, sujas, o sumo escorrendo da boca. Imagino que coisas fazem juntas e viro o rosto. Reviro os olhos. Sozinha na cama. O marido em viagem de negócios. Os filhos dormindo. E sonho de novo e de novo com os escorpiões amarelos.

Mas nem sempre foi assim. Confesso. Eu também já fui suja de desejos. Quando ela vinha e apertava a minha pele entre seus dedos. Como se colocasse a mão entre as fendas de uma árvore. Eu a podia sentir em minha dor como carícia. E mordia os lábios, rindo por dentro, louca por arranhões, tapas e empurrões. Qualquer contato, por mais absurdo, entre meu corpo e o dela. Misto de camareira e inocente útil, eu cuidava de pentear-lhe os cabelos, outro pretexto, e de vigiar seus pretendentes de perto, levando e trazendo bilhetes. É este? Não. É este? Não. É este? E foi assim que conheci o homem que me faria pensar em casamento. Não por amor, infelizmente. Mas em agonia de morte, veneno inoculado no peito.

Casei com ele só porque ela o queria. E ele a mim. Desde sempre. E ainda ardo na nossa última noite. Falei, enfim, sobre sonhos e pesadelos e escorpiões. O vestido de noiva sobre a cama, os convidados no andar de baixo, num misto de alegria e confusão. E tudo que lembro é a sensação da água, que subia, encharcando meus tornozelos e, logo, entrando pela boca e enchendo os pulmões. Até que já não podia dizer nada. E o sentimento em torno de mim era um oceano inacreditavelmente solitário e sombrio. Todo o resto foi puro exercício de existir. Vestir a roupa branca, percorrer a nave central da igreja, dizer sim. E, dentro dos anos, procriar, criar herdeiros da vergonha para deixar entregues ao mundo, ao grande mundo.

Ouçam. O amor é armadilha. É sonho. Ou nada, nada mesmo. Os escorpiões sobreviveram a muitos cataclismos, mas não venceram. Vejam como ainda se escondem e usam o veneno. Pobres criaturas seculares. Tão venenosas quanto indefesas… Outro domingo. E deixo que tudo desapareça, engolido pela segunda-feira. Há um revólver guardado na gaveta direita da cômoda. E a carta que ela mandou antes de atirar. Sei que estou acordada, que estive acordada todo o tempo, e agora sinto o animal peçonhento subindo pelas pernas. Nenhum medo. Quase gozo. Ao sentir o ferrão penetrar a minha pele e destruir-me os nervos.

A pedido da poeta Ângela Vilma, publico aqui o texto “Escorpião Amarelo”.

Amadurecer para sobreviver

In Imagens on Maio 14, 2008 at 2:27 pm

Vi umas fotos péssimas de Amy Winehouse em sites de fofoca. Há quem faça piadas. Penso em Janis Joplin, principalmente nos registros da passagem dela pelo Brasil, uns meses antes de morrer de overdose, aos 27 anos. As fotos de Joplin foram publicadas originalmente na revistra “Trip”. Ponho as duas lado a lado aqui no “Madame”. Não vejo nada engraçado no calvário de Amy. Sempre fui meio careta, mas pertenço a uma geração que consumia de tudo e aplicava até glucornegam nas veias. Muita gente boa que conheci ficou pelo caminho e outros lidam hoje com as conseqüências. Dizem, e é verdade, que sobrevivemos à adolescência. Amy já tem 24 anos. É hora de amadurecer para sobreviver.

Soneto peripatético

In poesia on Maio 13, 2008 at 7:39 pm

Se a solidão adensa com seus frios
humores o silêncio de geleiras,
a esperança derrete como guizos
de festa o gelo em cores de aquarelas.

E se a esperança se contorce em risos,
como a graça incontida de donzelas,
a solidão imposta-se de brios,
como um asco escolástico de freiras.

Essas inseparáveis inimigas
giram em roda efêmera de intrigas…
E a gente atesta, no avançar das pernas,

que a solidão esperançosa, tanto
quanto a esperança solitária, entanto,
são nada, nada mais além de eternas.

Poema novíssimo de Luís Antonio Cajazeira Ramos

Não sei distinguir no céu as várias constelações (Cecília Meireles)

In poesia on Maio 13, 2008 at 1:46 am

Se dizem meu nome, atendo por hábito.
Que nome é meu?
Ignoro tudo.

Quando alguém diz que sabe alguma coisa,
fico perplexa:
ou estará enganado, ou é um farsante
-ou somente eu ignoro e me ignoro desta maneira?

E os homens combatem pelo que julgam saber.
E eu, que estudo tanto,
inclino a cabeça sem ilusões
e a minha ignorância enche-me de lágrimas as mãos.

Como se

In poesia on Maio 11, 2008 at 8:58 pm

Como se cantasse por bebida
na Belleville e tivesse uma amiga,
uma única amiga, chamada Mitre,
com a qual dividisse um quarto
na sarjeta, e um sonho absurdo,
embalado em absinto. E, de repente,
ela visse claramente que não presto
e me deixasse só, com poucas moedas
no bolso. E, então, em meu pesadelo,
eu a perseguisse, amargurada e bêbada,
na Belleville, e a ferisse de morte.
- Insone ainda?
- Em busca da voz ou do vício.

O escorpião amarelo

In Teatro on Maio 9, 2008 at 1:09 pm

Foto: João Meirelles

Li um comentário sobre “Batata!” no Nacocó e não estou linkando aqui por ser elogioso. Beth Ponte, que assina, diz que “O Escorpião Amarelo” abusa do tom poético. Concordo, mas confesso que não faria diferente. Vi “Batata!” duas vezes em busca de aprendizado. Eu nunca havia escrito para teatro e fiquei meio deslocada na dinâmica. Talvez por extrapolar em lirismo, como anota Beth, ou pela inexperiência de autora iniciante, que não sabe aproveitar os recursos da linguagem. Mas o espetáculo é interessante, marca os 10 anos do “Dimenti”, e segue para Recife, PE, em junho.

Por 15 minutos de fama, infâmia

In Curiosidade on Maio 7, 2008 at 3:45 pm

O costa riquenho Guillermo Vargas Habacuc amarrou um cão de rua e o deixou morrer de fome e sede diante dos impassíveis visitantes de uma galeria de arte na Nicarágua. O feito agradou aos críticos, que o convidaram a repetir a instalação na “Bienal Centroamericana Honduras 2008″, sacrificando outro animal. Clicando aqui, você pode assinar uma petição on line contra isso. Não sei se terá efeito prático, mas é uma forma de protesto. Diante do reconhecimento da crueldade como forma de arte, e da reação dos visitantes da exposição, que nada fizeram pelo cão, o que pensar?

Acrescento nova foto, estimulada pelo comentário de Marcus Gusmão, mostrando a degradação física do cão. Infelizmente, não creio que seja uma lenda urbana.

Canção do amor da jovem louca (Sylvia Plath)

In poesia on Maio 7, 2008 at 2:27 pm

Cerro os olhos e cai morto o mundo inteiro
Ergo as pálpebras e tudo volta a renascer
(Acho que te criei no interior da minha mente)

Saem valsando as estrelas, vermelhas e azuis,
Entra a galope a arbitrária escuridão:
Cerro os olhos e cai morto o mundo inteiro.

Enfeitiçaste-me, em sonhos, para a cama,
Cantaste-me para a loucura; beijaste-me para a insanidade.
(Acho que te criei no interior de minha mente)

Tomba Deus das alturas; abranda-se o fogo do inferno:
Retiram-se os serafins e os homens de Satã:
Cerro os olhos e cai morto o mundo inteiro.

Imaginei que voltarias como prometeste
Envelheço, porém, e esqueço-me do teu nome.
(Acho que te criei no interior de minha mente)

Deveria, em teu lugar, ter amado um falcão
Pelo menos, com a primavera, retornam com estrondo
Cerro os olhos e cai morto o mundo inteiro:
(Acho que te criei no interior de minha mente).

Tradução de Maria Luiza Nogueira

Tragédia, comédia e passarinhos

In Divagações on Maio 3, 2008 at 3:11 pm

Na verdade, Ari, já matei passarinho de badogue, sim. Foi no interior, com um primo chamado Pereirinha,  quando era criança. Tenho essa mancha em meu passado. E ele ainda espetava os bichinhos na cerca de arame farpado da fazenda. O pior, Marcus, é que estou pesquisando esses programas para uma comédia. Mas nem comecei a escrever ainda. Calhou de eu ficar em casa justamente quando o tema predominante é uma tragédia. Mas o que me interessa é o jogo de cena dos apresentadores. Agora, não posso negar que sempre fui fascinada por casos policiais. Aos 8 anos, meu brinquedo predileto era um gravador, daqueles bem antigos e pesados. Nele, eu gravava em fitas cassetes coberturas de crimes da época, com informações recolhidas em jornais e revistas. Cobri, por exemplo, o Caso Doca Street em 1977, gravando narrativas baseadas em reportagens. Parece mentira, mas foi assim que descobri o que eu queria ser quando crescer.

Fora do ar

In Televisão on Maio 2, 2008 at 2:34 pm

Chove na cidade. Vejo tudo da janela. Minha antena sempre sai do ar quando chove e, assim, fico temporariamente orfã da programação ruim da TV a cabo. Assisti a um filme em DVD, “Crepúsculo dos Deuses”. Perfeito. Amo Billy Wilder. Olho minhas opções na estante da sala. Poucas. Há “Um Dia de Cão”, de Sidney Lumet, que poderia rever hoje. E “Cidade dos Sonhos”, de David Lynch, que comprei por inacreditáveis R$ 12,90 no balaio de um supermercado. Aliás, foi no balaio que achei também dois outros filmes que adoro, “Thelma & Louise”, de Ridley Scott, e “Tomates Verdes Fritos”, de Jon Avnet. Todos baratíssimos. Nem vou falar sobre o lixo que tenho visto nesses dias na TV, pesquisa para um novo texto.

Helena Ortiz

In Citações, Divagações, poesia on Maio 1, 2008 at 2:28 pm


Acordei pensando em Vinicius de Moraes e nos poetas que li na infância. Chico Buarque, num documentário sobre o poetinha, disse que ele não se encaixaria no modo como vivemos hoje. Pose e mais pose. Basta passear pelos blogs e ler as referências ao novo filme de Woody Allen. Pose e mais pose. Como Nelson Rodrigues disse, em entrevista a Otto Lara Rezende, o melhor conselho a dar aos jovens é “envelheçam”. Escrevi um poema sobre envelhecimento chamado “Santiago” e enviei para a poeta gaúcha-carioca Helena Ortiz, que tive o prazer de conhecer em Salvador. Ela o publicou em seu jornal literário, o “Panorama da Palavra”. Helena é uma das poetas contemporâneas que mais admiro. O seu livro mais recente, “Sol sobre o dilúvio”, é simplesmente divino. E, como vem chegando o Dia das Mães, e vocês merecem conhecer a poeta, publico aqui um dos poemas dela de que mais gosto: “Dilúvio”. Observem que belo desenho lírico.

As águas cobrem as ruas,
arrastando tudo.

Do outro lado, junto ao muro,
minha mãe. Só os olhos
pedem que a recolha.

Tenho a força de mil cavalos,
e aquela flor
contra a corrente.

Tomo minha mãe nos braços,
ela se encolhe,
aqueço-a em meu colo,
e devolvo-lhe o leite.