Posts de Abril, 2008
Cachorro brabo, orangotango furioso
In Divagações on Abril 27, 2008 at 1:42 pmNa noite passada, sonhei que meu cachorro havia desaparecido. Desde a operação, ele tem sido mantido distante. Anda nervoso com isso, pois é muito mimado. Outro dia, Érica o levou para passear no condomínio e ele quebrou a coleira e atacou um outro cão. Nunca havia feito coisa parecida antes. Pelo contrário, é absolutamente tranqüilo. Todas as manhãs, ele vem ao meu quarto e fica me olhando de longe. Às vezes, dorme no vão da porta, como se estivesse de guarda. Quando posso, faço um carinho rápido na cabeça dele. Meu cachorro é como uma criança. Domingo de manhã e três canais (inclusive o GloboNews) transmitem ao vivo a reconstituição do Caso Isabella. São tantos os detalhes sórdidos que, confesso, sou incapaz de processar. Eles me fazem perder o sono e a fé na humanidade. E não falo apenas do assassinato, mas da cobertura “jornalística”. Sempre que penso na versão apresentada pelo pai, Alexandre Nardoni, me vem à mente o conto “Os Crimes da Rua Morgue”, de Poe. Quem dera descobrissem que foi um orangotango furioso, que, em sua inocência selvagem, espancou, asfixiou e lançou a menina do sexto andar.
Beatitude
In poesia on Abril 26, 2008 at 3:51 pmComo quem vive na quietude,
deixando que o tumulto passe.
E acompanha a turba,
disfarçado de padre, ou guarda
a placa de protesto sob a burca.
Como quem morre na quietude,
deixando que os anjos voem.
E desaba sobre os joelhos,
engolindo a juventude, ou vomita
diante de todos na última noite.
Como quem sabe: “Ah, é inútil
insistir no erro”. E grita, sem nome.
Paulo Mendes Campos
In poesia on Abril 26, 2008 at 3:32 pmSó o domingo não é um dia da semana,
só o domingo é
alto e anterior ao calendário,
só o domingo pertence
ao que é invisível ao homem,
só o domingo se põe como um cavalo vermelho
sobre as nuvens…
Bem devagar
In Divagações on Abril 25, 2008 at 12:09 pmHá dez dias, entrei pela primeira vez na vida numa sala cirúrgica. Daí o “Madame” estar às moscas. O pós-operatório tem sido doloroso. De licença médica, em casa, ando sem paciência para ler e cansada de cama e TV. Ontem, finalmente, consegui postar um São Jorge (era o dia dele!). Hoje, decidi me aventurar num post inteiro. Mas não quero forçar muito. Não há grandes novidades, como vocês podem imaginar. E nem inspiração. Amanhã, talvez, se as dores derem nova trégua. Hoje, além de postar, até cantei. Canções de Dalto.
No compasso da linguagem
In jornalismo on Abril 14, 2008 at 12:50 amTrechos da entrevista que fiz com um dos meus autores prediletos, João Gilberto Noll, para o jornal A TARDE em 2004. Ele fala sobre o romance “Lorde”. A foto é de Felipe Zig.
João Gilberto Noll é daqueles raros autores que não perdem a simplicidade, mesmo sendo um dos mais festejados e premiados do País. Sua bagagem inclui quatro Jabutis e prêmios da Fundação Guggenheim, Academia Brasileira de Letras (ABL), Instituto Nacional do Livro e Associação Paulista dos Críticos de Arte (APCA), além de bolsas concedidas pela principais instituições, e de um convite, recebido em 1997, para lecionar Literatura Brasileira no Campus de Berkeley da Universidade da Califórnia (EUA). Noll é formado em Letras pela PUC-RJ. Autor de vários livros e estreando em uma nova editora (a W11), ele passou dois meses em Londres, este ano, como escritor-residente no King’s College. E foi na capital londrina que surgiu a idéia para Lorde. Nessa entrevista, ele fala também sobre o livro anterior pela W11, a coletânea Mínimos, Múltiplos, Comuns, que reúne contos publicados na Folha de S. Paulo, e sobre criação, arte e o esgotamento do eu, um dos temas contemporâneos que mais o inspira.
Kátia Borges – Você escreveu Lorde depois de uma experiência londrina. Podemos dizer que o livro, de certo modo, engana o leitor, já que autor e personagem parecem meio misturados nas primeiras páginas?
João Gilberto Noll – Eu escrevi o livro no período em que fui escritor residente do King’s College e eu me alimentei muito da minha experiência em Londres, embora o livro não seja uma autobiografia. Existem uns toques ficcionais.
KB – O protagonista vai se distanciando do autor à medida em que se afasta do aeroporto e inicia um processo de mutação. Concorda?
JGN – Sim. Acho que você fez uma leitura muito sensível do livro. É assim mesmo. À medida em que ele se afasta daquele aeroporto, ele vai se distanciando também da identidade que ele tinha. No meu caso, havia uma instituição sólida e verdadeira por trás do convite para ir a Londres. No caso dele, não. Ali começa a haver a necessidade de uma transformação, de uma metamorfose, que ele também estava ansiando ao atender ao chamamento do inglês.
KB – A estranheza que envolve o personagem principal fisga a curiosidade do leitor, e eu ousaria dizer que ela permanece, para além da última página, já que esta nos lança em um novo enigma.
JGN – Concordo com essa análise, tanto que estou idealizando uma trilogia a partir desse livro. Acho que tenho muito a dizer sobre esse pequeno Frankenstein em que o personagem se transformou, sob um novo heterônimo, para usar uma palavra de Fernando Pessoa. O aspecto de consciência continuou sendo a dele, mas o corpo passou a ser o de um inglês.
KB – Em alguma medida, como a sua experiência no King’s College de Londres estimulou a criação de Lorde?
JGN – Foi total. O estímulo foi total. Eu fui para dar andamento ao meu projeto de romance. Quando tenho um projeto, eu parto de manchas muito difusas, gosto que os personagens tomem conta da ação. Os destinos deles se fazem no ato da escrita. É o meu modo de escrever. Evidentemente, há outros. Eu sou um escritor que trabalha o inconsciente e que gosta de ser surpreendido. Se eu soubesse o final, escrever deixaria de ser necessário. Para mim, a escrita é uma investigação. Sou um escritor da linguagem e é ela que vai abrindo o caminho, com seu ritmo e sua melodia. No caso de Lorde, a idéia veio do ato de caminhar pelas ruas de Londres. O personagem central, seguindo o exemplo de outros personagens centrais meus, é um andarilho, que gosta de se sentir mergulhado na multidão. Alguém que quer ser todo mundo e, ao mesmo tempo, ninguém. E isso expressa uma grande paixão, um grande amor, mas tem o perigo de representar a morte. O amor é essa mistura.
KB – Lorde acaba propondo também uma reflexão sobre a função do escritor no planeta. E, ao mesmo tempo, sobre o envelhecimento e a identidade. E não deixa de ser ironia que o ensino da língua portuguesa seja o resgate do personagem.
JGN – Ele quer ser outro, por estar sofrendo de um esgotamento do eu. É por isso que ele se maquia e pinta o cabelo. Mas não só por isso, é muito pelo processo da decrepitude. Ele nem é tão velho assim, tem uns 50 e poucos anos, mas já está antevendo a condição da velhice. Em relação ao ensino da língua portuguesa, como já dizia Fernando Pessoa: “Minha pátria é minha língua”. E isso é só o que ele tem, no final, a língua portuguesa. Não é à toa que ali eu cito Manuel Bandeira, de quem ele se lembra. Bandeira é o poeta da simplicidade.
KB – Como surgiu a idéia de trabalhar com instantes ficcionais em Mínimos, Múltiplos, Comuns?
JGN – Esse processo é resultado do que eu escrevi, duas vezes por semana, para a Folha de S. Paulo. Hoje, não sei se são contos. Acho que “instantes ficcionais” é uma boa definição. Fiz uma seleção, junto com Wagner Careli. Sou responsável pela criação, mas foi o Wagner que os organizou por temas. Eu parti de um convite e fiquei completamente envolvido com isso durante três anos e meio. Agora, tenho feito a mesma coisa para o Correio Braziliense, só que, desta vez, é um conto grande, publicado quinzenalmente no suplemento Pensar, e que ocupa duas páginas em tamanho tablóide. Não aceito fazer crônicas, não sou um cronista, não gosto de falar de coisas reais, não tenho vocação para isso. Não gosto de escrever a partir de um tema, de um assunto, mas de deixar que a linguagem me tome e me leve.
KB – Você diz que a linguagem é o “abre-te sésamo deste novo mundo”. Esse, em sua visão, é o lugar destinado à literatura, à linguagem, no século XXI?
JGN – Eu acho que sim. Evidentemente, para o sujeito que se propõe a ser artista da palavra, sobretudo o poeta. Mas a poesia não está somente nos versos. A prosa também pode ter um cunho poético. Essa questão de deixar o inconsciente fluir através da linguagem é a função do escritor. Ele tem que “presentificar”, mostrar ao leitor, como é difícil o parto da linguagem. Às vezes, as questões que ele trabalha não têm, aparentemente, nenhuma importância política. Mas, por exemplo, considero a crise das identidades e a solidão urbana como um assunto de importância política, principalmente no mundo violento em que vivemos.
sobre livros e amigos
In Divagações on Abril 13, 2008 at 11:52 pmQuero agradecer as palavras generosas de quem deixou coments em “Chiquita Bacana”, especialmente a Luís Antonio Cajazeira Ramos, que voltou a escrever poesia, e a Gerana Damulakis (grande honra!). Andei passeando pelos blogs dos amigos e visitei o “Cozinha do Cão”, de Gustavo Rios, que ainda não tive o prazer de conhecer pessoalmente. Não li “O amor é uma coisa feia”, livro que ele lançou no ano passado. Mas pretendo ler, pois fiquei de cara com os textos que encontrei lá, muito bons. Marcus Gusmão, do Licuri, me disse que a história do bloqueio do wordpress é fake. Tomara. Nos próximos dias, dois lançamentos de amigos. No dia 16, a jornalista Suzana Varjão lança “Micropoderes, macroviolências”, na Academia de Letras da Bahia, às 18 horas. Tese de mestrado em Sociedade e Cultura. Li o livro em CD e posso garantir que é um trabalho de pesquisa e análise impecável. No dia 26, Lúcia Santóri-Carneiro lança o belo “As Voltas do Tempo”, na LDM, às 10 da manhã. Também já li uma primeira versão e é uma estréia e tanto. Fiz um texto para ele, mas não sei se foi mantido na edição. E, em breve, o jornalista e ator Lago Jr. também vem aí com seu segundo livro, “Cartas para um amigo desconhecido”, que tem orelhas assinadas por mim. É um trabalho de fôlego e bastante autêntico que tenho orgulho em apresentar. Vontade de publicar um livro…
Novo pouso
In Sem-categoria on Abril 10, 2008 at 12:11 amDeu hoje no G1. Por conta de um processo que corre em segredo de justiça, o acesso a todos os blogs do wordpress será bloqueado no Brasil. A ordem judicial foi expedida, no final do mês passado, e a qualquer momento terá que ser cumprida. A informação foi confirmada por Eduardo Parajo, presidente da Associação Brasileira de Provedores de Internet. O wordpress abriga hoje quase 1 milhão de blogs (segundo a matéria do G1). Vamos procurando novo pouso, pessoal.
Blindness
In Cinema on Abril 9, 2008 at 7:44 pm
Vale uma visita ao blog (http://blogdeblindness.blogspot.com/) criado pelo diretor brasileiro Fernando Meirelles (Cidade de Deus) sobre seu novo filme americano, Blindness, baseado em Ensaio sobre a Cegueira, livro do português José Saramago, com Julianne Moore (de Magnólia) no elenco. No diário virtual, Meirelles comete posts absolutamente confessionais, mas a parte mais bacana são os inúmeros toques práticos para quem escreve, ou deseja escrever, roteiros. O trailer de Blindness – o primeiro filme de Fernando em Hollywood foi O Jardineiro Fiel – já está no youtube (veja aí em cima).
Chiquita bacana
In poesia on Abril 9, 2008 at 12:40 amQuero um filho. Do batuque.
Um filho do balacobaco, do truque,
um pequeno Macunaíma, do rock,
pra sacudir a tranqüilidade da tribo.
Quero um filho. Do meu sangue.
Um filho do meu passado de baque,
um beque, que venha pronto pro ataque,
um bacuri com cocar, um dos Stones.
Pra me despertar com seus gritos de guerra,
e fincar os dois pés na minha taba, a paz, na minha Tebas.
Sim, quero um filho. Ser a Chiquita bacana.
Pôr um pequeno rei neste mundo de merda.
Um doce Sidarta cercado de mimos, um César.
Um filho. Que venha de dentro,
não necessariamente muito lindo, mas esperto,
conhecedor do horror do planeta, e do belo.
Um filho. Que venha da alma,
do coração, e de cada pequeno grão
de poeira do universo. Sim, eu quero.
In poesia on Abril 8, 2008 at 10:08 pm
Mil recados
In Divagações on Abril 8, 2008 at 9:05 pmOi, Ari, topo sim! Orocil me propôs adaptar “Giovanni”, de Baldwin. Não me arriscaria a tanto Ainda sou muito verde. Mas encararia um texto criativo com Bette Davis, a quatro mãos, e concordo sobre a semelhança entre ela e Rita Assemany. Acho que são os olhos marcantes que as duas têm. Bom, Aeronauta, amanhã quito meu débito contigo (os livros). Mil perdões pela demora e enrolação. Sandro, sinto falta de vc por aqui. Apareça! Dia 15, o blog entra em recesso por tempo indeterminado. Até lá, os post serão meio corridos. Ando tensa e sem tempo. Depois que tudo passar, conto pra vocês.
Dulce Veiga
In Cinema on Abril 7, 2008 at 7:50 pmNão gostei de “Onde Andará Dulce Veiga?”. Após 180 minutos de um filme sem ritmo e com péssimas atuações, de Carolina Dieckmann e Eriberto Leão, quase segui o caminho da personagem de Caio Fernando Abreu e desapareci. O Cinema do Museu, no Corredor da Vitória, estava lotado de gays de várias gerações. Do nosso lado, um casal de mulheres dava altos amassos. Reencontrei um dos meus amigos mais queridos, Adal, que sentou conosco e amou o longa. No final, conversamos rapidamente sobre nossas discordâncias. Adal agora tem celular, coisa boa para quem sente falta dele. Não vou tecer um comentário mais profundo, e azedo, sobre “Dulce Veiga” em respeito ao romance de Caio Fernando Abreu.
Caio
In Divagações on Abril 6, 2008 at 9:42 pmNão gostei do novo modelo de edição do wordpress. Trabalhei hoje o dia inteiro. Cheguei em casa cansada. Não tenho cabeça para nada, uma sílaba sequer. Só ver desenho ou série americana na TV. Nada, por favor, sobre o assassinato brutal daquela criança de 5 anos. Nenhuma palavra sobre a menina de 12, torturada barbaramente pela empresária. Passe para cá esse DVD do Bob Esponja. Vou sair com meu amor para ver um filme no Cinema do Museu, “Onde Andará Dulce Veiga?” Só mesmo Caio Fernando Abreu para me tirar de casa.
In Divagações on Abril 5, 2008 at 2:10 am
Fui ver “Batata!” ontem. Estava bem cheio. Gostei da peça, especialmente do texto de Elísio Lopes Jr. Fiquei com vontade de escrever mais para teatro. Estou vivendo um momento complicado, tenso, esquisito. Não sei ainda. Fecharei meus olhos e pensarei em algo que seja muito bom, um sonho, um desejo, uma bênção, algo que Deus possa me ajudar a materializar.
In Divagações on Abril 3, 2008 at 1:05 am
Apreensiva. Ainda gripada. Sem dormir direito. Concentrada. Planejando continuar o livro. Achando a literatura inútil. Com esperanças. Com fé. Com medo. Feliz. Na expectativa. Com vontade de fugir. Com coragem para encarar. Dividida ao meio.
Basta, Coração!
In poesia on Abril 2, 2008 at 1:22 am
Onde jaz, coração, meu peito é morto.
Uma pétala pálida – eis a pele.
Em ardências de vela esvai-se o corpo.
Do porto inútil parte um sol de neve.
Horizontalizaram-se as ladeiras.
Os horizontes viram-se sem prumo.
Os fios desaliaram-se das teias.
O Deus de todos debandou do mundo.
Quanta lágrima súbita? Nenhuma.
O mesmo pranto paira e espraia a bruma.
Mas o olhar sobra ao choro cego e vê.
Nem sei se a vida vale a flor que espreito.
Coração, tem-me à força em dor sem jeito.
Eu morro de vergonha de você.
Luís Antonio Cajazeira Ramos
Caixa de abelhas
In poesia on Abril 1, 2008 at 5:57 pmLembro ensolaradamente aquela tarde,
eu e meu pai,
após mais uma ida ao médico.
Ele faria radiografias da mandíbula,
mas estava tranqüilo,
e havia uma paz enorme entre nós.
De tudo, depois de tanta dor,
guardei comigo aquele enlevamento
vespertino, e o modo incrível
como mexeram comigo
uma certa brisa e a sombra imensa
que as árvores projetavam
no asfalto.
***
Fomos, eu e minha mãe, ao sapateiro
numa rua esquisita, e bem antiga,
no velho centro. Ela, ainda firme,
conduzia o carro sem tocar o volante,
enquanto descíamos vielas repletas
de casarões muito pobres. Levávamos
num saco plástico um par de botas
de couro pretas, e a determinação
de trocar o solado para mais um Inverno.
Só minha mãe sabia como chegar
até a oficina de consertos, e eu a seguia
como se tivesse novamente 10 anos.



