Leito de hospital. O ex-deputado federal Chico Pinto tem uma revista à mão e interrompe a leitura ao menor barulho da porta. “Rapaz, eu estava mesmo lhe procurando!”. Deseja registrar nossos papos informais sobre sua vida pública, antes que seja recolhido pelo silêncio. Melancolia e inquietação, três horas e meia de depoimento. Esbarro em um rio incontido de histórias.
Penso que Chico Pinto era nutrido por palavras. Sua insônia teria nascido dessa angústia de compreender, verbalmente, o mundo? Sebastião Nery me descreve o companheiro de prisão no quartel do Barbalho, em 1964: cigarro aceso, às vezes falava sozinho, madrugada afora. Com quem debatia? “Deus”, a resposta de Chico. E convidava Nery a perder uma noite. Porque uma noite também se perdia com palavras.
A ironia mal se fazia esconder no sorriso de beato. Traz saudade a conciliação do discurso de esquerda com a crença mais profunda no humor. No leito, força o gogó para cantar o jingle da campanha a prefeito de Feira de Santana, em 1962: “Pinto, ô Pinto, querem te passar pra trás, Pinto, ô Pinto, querem te roubar a paz…”. Esquece o resto da letra, e volta à lembrança das conspirações com militares nacionalistas.
O militarismo marcou os anos juvenis de Chico Pinto. Nasceu sob as estrelas de 1930, ano da Revolução. Para compreender seus diálogos na caserna, é preciso situá-lo como um brasileiro que testemunhou os tenentes no poder e assistiu às intervenções militares do Estado Novo a 1964. No MDB (Movimento Democrático Brasileiro), estudou a presença do Exército na política, municiou-se com o ideário nacionalista.
Bem mais remota era a ausência de preconceitos com o fardão. Em menino, se enlevava com os desfiles militares. Ouço-o explicar:
– Eu tinha o maior encantamento pela farda. Achava bonito, admirava. Portanto, esse sentimento infantil me desarmou, eu não tinha ódio dos militares. Havia até respeito.
Sua saída da política, em 1990, coincide com as ruínas da Guerra Fria e a retomada do civilismo no Brasil. Outro mundo. Mas sua geração – principalmente a parcela que conduziu a resistência democrática no MDB – deixou uma herança rejeitada pelos novos líderes: a defesa e a prática dos princípios republicanos.
Insistia em defender a República dos seus detratores e da lamúria do ex-senador Saldanha Marinho: “Essa não é a República dos nossos sonhos!”.
- Sempre me irritou a idéia de que o povo assistiu bestializado à proclamação da República. É um erro. Porque as idéias repúblicanas estavam disseminadas na sociedade. Não houve surpresa coisa nenhuma.
Chico olhava para a frente, tirânico com o tempo que lhe restava. Não cogitava a morte; essa indiferença tornou sua despedida ainda mais terna. “Quando eu sair daqui, vamos voltar a nos reunir”, repetia à amiga Olívia Soares. Ao lado da mulher e da filha, recebeu os amigos fundamentais, refletiu sobre o cigarro e os homens. Um velho companheiro de MDB – também de vitamina de abacate e bolinho da Cubana – lhe fez uma confissão de silêncio e tristeza:
– Tenho andado calado, Chico.
– Por quê? Não pode. Deixa eu sair daqui! Vamos voltar a discutir o País…
Três horas e meia, a despedida, o avião à espera. Com um pé no corredor, volto a saudar Chico Pinto. Fagulham os olhos. “Deus lhe gratifique”, diz-me. Por questão de princípios, Chico completa a frase: “Se é que você acredita Nele!”. Puxa a coberta ao peito, desdenha da fraqueza pulmonar, abre o sorriso que me faz merecer a desconfiança de Deus. Último encontro, um quarto de hospital. Palavra: o amigo ainda sorri.
De Claudio Leal, enviado por e-mail a Ceci Alves. Ao ler um texto dele sempre acho que a profissão ainda vale a pena, e que nenhuma alma é pequena.