Kátia Borges

Posts de Fevereiro, 2008

Por um ângulo

In Livros, jornalismo, papo furado on Fevereiro 28, 2008 at 7:18 pm

O ano é 1997. Madrugada de sábado em São Paulo. Cinco ladrões invadem o Bodega, reduto de artistas e jovens de classe média alta no bairro de Moema. Um rapaz é atingido no braço por um tiro ao sair do banheiro. Outros dois  têm menos sorte. São baleados e mortos. A sociedade desperta da habitual letargia junto com a mídia. Movimentos contra a violência são rapidamente criados. E, com a mesma desenvoltura, a polícia civil  aponta culpados. Nove rapazes negros e pardos, moradores da periferia. São detidos como suspeitos e confessam. A imprensa notícia tudo por um ângulo, o da autoridade policial. Não leva em consideração sequer as contradições entre o que dizem testemunhas e funcionários – cinco rapazes brancos foram descritos como autores do assalto – e os fatos. Mas, denunciados ao Ministério Público, os acusados são libertados por um promotor de apenas 29 anos, que discretamente acompanhava o caso a distância. Todos haviam sido barbaramente torturados. Nenhum deles jamais pôs os pés no Bodega. Após um linchamento público, o promotor mostra  que estava certo. Os verdadeiros criminosos são presos e julgados. E nem assim a grande imprensa – com exceção de Luís Nassif – dedica qualquer espaço à correção de seus erros. Dez anos depois, um jornalista,  repórter de TV, percorre as ruas de terra batida das favelas. Busca, um a um, os sobreviventes do episódio. Encontra vidas destruídas pelo caminho. E narra tudo em um livro.

 Bar Bodega – Um Crime de Imprensa, de Carlos Dorneles

Uma passagem para Marte

In Divagações on Fevereiro 28, 2008 at 1:20 am
capa_img9.jpgcapa_img9.jpgcapa_img9.jpgcapa_img9.jpg

Gosto de mim. Eu me namoraria. Me daria um tempo até para emagrecer. Ah, eu juro que teria essa paciência comigo. Pesaria apenas as minhas qualidades. Uma pessoa bacana assim não se ama todo dia. E ainda mais com tanta modéstia e humildade. E sabe das coisas. Ah, como sabe! Se eu fosse de áries, então, sem sombra de dúvidas, diria: “você é a pessoa que eu esperava”. Ah, sim, eu diria. Quem mais poderia cantar com tanta propriedade uma canção de Janis Joplin? Sim, quem poderia? E as coisas loucas e lindas que eu me daria? Uma viagem romântica e pronto. Mil pontos no meu coração card. Eu me daria livros interessantes. Eu me daria um CD raro de Fausto Fawcett. Eu me daria uma passagem de ida e volta para Marte. Eu me daria a chance de ser feliz inteira, que nada serve pela metade. Eu me daria inteira. Sim, eu me daria. Gosto de mim. Da minha cara sempre pronta pra sorrir. Do meu jeito meio sem jeito de me vestir. Da minha garra, do meu talento, do meu estilo. Gosto de mim. De como enfrento as adversidades, e desse blog louco e mutante. Até mesmo do meu passado e das coisas que perdi. É pecado amar-se? Eu me pediria em casamento, sabendo que teria para sempre ao meu lado alguém interessante, que me faria gargalhar nos momentos mais angustiantes. E viveria comigo feliz por toda a eternidade.

Chico Pinto: um silêncio, uma palavra

In Citações on Fevereiro 27, 2008 at 12:53 pm

Leito de hospital. O ex-deputado federal Chico Pinto tem uma revista à mão e interrompe a leitura ao menor barulho da porta. “Rapaz, eu estava mesmo lhe procurando!”. Deseja registrar nossos papos informais sobre sua vida pública, antes que seja recolhido pelo silêncio. Melancolia e inquietação, três horas e meia de depoimento. Esbarro em um rio incontido de histórias.
Penso que Chico Pinto era nutrido por palavras. Sua insônia teria nascido dessa angústia de compreender, verbalmente, o mundo? Sebastião Nery me descreve o companheiro de prisão no quartel do Barbalho, em 1964: cigarro aceso, às vezes falava sozinho, madrugada afora. Com quem debatia? “Deus”, a resposta de Chico. E convidava Nery a perder uma noite. Porque uma noite também se perdia com palavras.
A ironia mal se fazia esconder no sorriso de beato. Traz saudade a conciliação do discurso de esquerda com a crença mais profunda no humor. No leito, força o gogó para cantar o jingle da campanha a prefeito de Feira de Santana, em 1962: “Pinto, ô Pinto, querem te passar pra trás, Pinto, ô Pinto, querem te roubar a paz…”. Esquece o resto da letra, e volta à lembrança das conspirações com militares nacionalistas.
O militarismo marcou os anos juvenis de Chico Pinto. Nasceu sob as estrelas de 1930, ano da Revolução. Para compreender seus diálogos na caserna, é preciso situá-lo como um brasileiro que testemunhou os tenentes no poder e assistiu às intervenções militares do Estado Novo a 1964. No MDB (Movimento Democrático Brasileiro), estudou a presença do Exército na política, municiou-se com o ideário nacionalista.
Bem mais remota era a ausência de preconceitos com o fardão. Em menino, se enlevava com os desfiles militares. Ouço-o explicar:
– Eu tinha o maior encantamento pela farda. Achava bonito, admirava. Portanto, esse sentimento infantil me desarmou, eu não tinha ódio dos militares. Havia até respeito.
Sua saída da política, em 1990, coincide com as ruínas da Guerra Fria e a retomada do civilismo no Brasil. Outro mundo. Mas sua geração – principalmente a parcela que conduziu a resistência democrática no MDB – deixou uma herança rejeitada pelos novos líderes: a defesa e a prática dos princípios republicanos.
Insistia em defender a República dos seus detratores e da lamúria do ex-senador Saldanha Marinho: “Essa não é a República dos nossos sonhos!”.
- Sempre me irritou a idéia de que o povo assistiu bestializado à proclamação da República. É um erro. Porque as idéias repúblicanas estavam disseminadas na sociedade. Não houve surpresa coisa nenhuma.
Chico olhava para a frente, tirânico com o tempo que lhe restava. Não cogitava a morte; essa indiferença tornou sua despedida ainda mais terna. “Quando eu sair daqui, vamos voltar a nos reunir”, repetia à amiga Olívia Soares. Ao lado da mulher e da filha, recebeu os amigos fundamentais, refletiu sobre o cigarro e os homens. Um velho companheiro de MDB – também de vitamina de abacate e bolinho da Cubana – lhe fez uma confissão de silêncio e tristeza:
– Tenho andado calado, Chico.
– Por quê? Não pode. Deixa eu sair daqui! Vamos voltar a discutir o País…
Três horas e meia, a despedida, o avião à espera. Com um pé no corredor, volto a saudar Chico Pinto. Fagulham os olhos. “Deus lhe gratifique”, diz-me. Por questão de princípios, Chico completa a frase: “Se é que você acredita Nele!”. Puxa a coberta ao peito, desdenha da fraqueza pulmonar, abre o sorriso que me faz merecer a desconfiança de Deus. Último encontro, um quarto de hospital. Palavra: o amigo ainda sorri.

De Claudio Leal, enviado por e-mail a Ceci Alves. Ao ler um texto dele sempre acho que a profissão ainda vale a pena, e que nenhuma alma é pequena. 

Guilherme

In papo furado on Fevereiro 26, 2008 at 1:53 am

Tenho feito um grande esforço para manter a regularidade do blog. Talvez por essa razão, os textos estejam mais confessionais. Poesia, que é bom, nada. Aí falo de outro tipo de lirismo, o da vida mesmo. Com afetos perdidos para a morte, desafios profissionais, pequenas tristezas e derrotas, alegrias de final de semana. Enfim, falo de mim. No post ”Subornos de Chocolate”, falei de Guilherme. Bem pouco. Retomo a narrativa da vida curta de um amigo, e de como nossos destinos se cruzaram num festival de música. Guilherme era fisicamente muito bonito. Um cara apaixonado por rock e que adorava vestir roupas pretas. Inspirou até a criação de uma banda, a “Isla Negra”. Casou muito jovem e teve dois filhos, uma menina e um menino. Vivia reclamando de que eu o procurava pouco. Queria me levar no bolso, um dia me disse: “Ah, se eu pudesse transformar você num chaveirinho…”.  Guilherme morreu de um modo louco. Dizem que brincava com o revólver do vigia do local em que trabalhava quando a arma disparou, versão em que não acredito. Vivia preocupado em estar presente durante o crescimento das crianças, ser um pai bacana. Vivia dividido entre o trabalho, a vida séria de homem casado, e uma pá de sonhos.

Praia

In papo furado on Fevereiro 24, 2008 at 5:00 am

Coisas tristes pedem certa resistência. Assim, quando a vida fica quase insuportável, vou à praia. Mesmo se é Inverno. É a minha maneira de mandar as dificuldades a merda. Foi o que fiz no sábado. Voltei leve, como quem coloca a cabeça na janela e percebe a existência plena da paisagem. Já me conferi, pedaço por pedaço, e estou inteira. Já olhei os dons que levo na bagagem e estão todos lá, intactos. Já vasculhei também minha frasqueira de talentos. Não há muitos, mas não falta um único. É que coisas tristes pedem realmente certa resistência. E, sim, quando a vida fica quase insuportável, vou à praia. É a minha maneira de mandar as dificuldades a merda.

Subornos de chocolate

In papo furado on Fevereiro 22, 2008 at 6:35 pm

Foi Barata quem me apresentou aos Smiths. Ele me deu “Hatful of Hollow”, discão de vinil que passei a ouvir o dia inteiro. Era o final da década de 80 e as boas amizades surgiam do nada. Barata, por exemplo. Nem lembro como foi. Só sei que ele conhecia Joca e Guilherme e que os dois hoje estão mortos. Foi Barata quem me deu a notícia da morte de Guilherme numa das últimas vezes em que nos falamos. E tudo isso me veio após escutar um CD da banda de Morrisssey. Joca morreu bem cedo, aos 19, de leucemia. Guilherme morreu beirando a maturidade, com quase 30, e um tiro. Raquel também morreu antes dos 30. Não sei como e nem interessa. Sempre que penso nela, só me lembro de coisas boas, ternas, engraçadas. O apelido que ela me deu quando ainda éramos duas crianças. Os subornos de chocolate para que eu não contasse a ninguém que ela estava furando a dieta. E o porre maravilhoso que tomamos juntas, misturando cerveja e o vinho ganho numa barraca de praia após adivinhar a música do Whitesnake. E tudo isso me veio ao escutar um CD da banda de Morrissey.

Tudo está interligado

In papo furado on Fevereiro 21, 2008 at 2:46 pm

Katherine Funke me ofereceu incensos budistas hoje. Varetinhas verdes de aroma delicado. E eu fiquei imensamente grata e feliz, pois ela sem saber me trouxe uma mensagem do universo: “paz interior no tumulto do mundo”. Podem me chamar de louca, mas não acredito que nada aconteça por acaso. Tudo se move interligado no tecido do tempo. E viajamos nessa imensa paisagem sem fim ou começo, numa divisão que simplificamos em horas, dias, semanas, meses, anos, décadas, séculos. Já escrevi sobre a briga com meu mestre? É assim que reverencio o I Ching desde 1994. Saudade dos hexagramas riscando no espaço o mapa do meu processo de crescimento. E tudo me diz que é hora de voltarmos a progredir juntos.

La negra

In Vídeos on Fevereiro 21, 2008 at 12:21 am

Nossa senhora do silêncio

In orações, poesia on Fevereiro 20, 2008 at 4:10 pm

Mãe do silêncio e da humildade, tu vives perdida e encontrada no mar
sem fundo do mistério do Senhor.
Tu és disponibilidade e receptividade.
Tu és fecundidade e plenitude.
Tu és atenção e solicitude pelos irmãos.
Estás revestida de fortaleza.
Resplandecem em ti a maturidade humana e a elegância espiritual.
És senhora de ti mesma antes de ser nossa senhora.
Teu silêncio não é ausência, mas presença.
Estás abismada no Senhor e ao mesmo tempo atenta aos irmãos.
A comunicação nunca é tão profunda como quando não se diz nada e o
silêncio nunca é tão eloqüente como quando nada se comunica.
Faz-nos compreender que o silêncio não é desinteresse pelos irmãos,
mas fonte de energia e de irradiação.
Não é encolhimento, mas projeção.
Faz-nos compreender que, para derramar, é preciso preencher-se.
Afoga-se o mundo no mar da dispersão e não é possível amar os irmãos com um coração disperso.
Envolve-nos em teu manto de silêncio e comunica-nos a fortaleza de
tua fé e a profundidade do teu amor. Amém.

Recebi essa belíssima oração por e-mail, enviada pela escritora Letícia Dornelles, que a encontrou no Google e desconhece o autor.

Nossa senhora dos esquisitos

In orações, poesia on Fevereiro 20, 2008 at 11:35 am

Para a senhora, minha santa,
é que rezo todo dia,
acendo velas, faço romarias,
Nossa Senhora dos Esquisitos

Clareia meus passo na Terra,
desarmai o arco e flexa,
nas mãos de meus inimigos

E amparai, ó estranha santa,
aqueles que são benditos
na legião que a segue,
até onde os caminhos se perdem,
ou desembocam no abismo.

Essa é minha, do livro “De Volta à Caixa de Abelhas”, lançado em 2002

Aos meus amigos

In Televisão, papo furado on Fevereiro 20, 2008 at 12:45 am

“Queridos Amigos” alcançou apenas 23 pontos na estréia. Possivelmente, reflexo da baixa audiência do “BBB 8″. O texto é uma adaptação de “Aos meus Amigos”, romance de Maria Adelaide Amaral, também autora da minissérie.

Nascida no Porto, Portugal, criada no Brasil desde os 12 anos, a escritora, formada em jornalismo, começou a produzir teledramaturgia em 1990. Antes, dedicou-se intensamente ao teatro (“Bodas de Papel”, “De Braços Abertos”, “Chiquinha Gonzaga”, “Electra”, “Mademoiselle Chanel”… )

Em TV, além de algumas novelas, escreveu adaptações de fôlego, como “A Muralha”, “A Casa das Sete Mulheres”, “Os Maias”, “Um Só Coração” e, mais recentemente, “JK”. O livro “Aos Meus Amigos” foi lançado em 1992.

Assisti ao primeiro capítulo. Basicamente, apresentação da história e dos personagens. Tudo gira em torno de Léo (Dan Stulbach), que descobre ter uma doença grave e reúne os amigos de juventude, todos agora beirando os 40.

É a década de 80, como a trilha sonora pontua, e eles são sobreviventes dos anos 70, quando a ideologia dividia o planeta. Texto, elenco e direção (entregue a Denise Saraceni) estão impecáveis e imagino a decepção da equipe ao conferir os números do Ibope.

Tatibitati

In papo furado on Fevereiro 19, 2008 at 4:25 pm

Estou reaprendendo a falar. Descobri na fonoaudióloga que minha voz sempre foi limitada pela timidez. Por exemplo, não abro muito a boca e não articulo bem as palavras. A intensidade com que falo é, no máximo, a necessária. E a finalização das frases também precisa ser trabalhada. Tudo depende de afinar a aparelhagem. A fonte sonora, ao menos, está intacta. Também estou tomando florais. Magnifcat. Vinte gotas três vezes ao dia. Me sinto outra. Não é que tenha perdido por completo o medo das coisas. Mas estranhamente voltei a respirar pelo nariz. O ar aquecido entra filtrado. Quase o sinto a dançar em volta. Se Vênus é meu planeta, estou mais próxima.

Cloverfield

In Cinema, papo furado on Fevereiro 17, 2008 at 10:35 pm

Fui ao cinema hoje, ainda de ressaca da festa de sábado. Acabei assistindo ”Cloverfield – Monstro” no Aeroclube. O shopping parecia parte do cenário. Como se a enorme coisa que destrói Manhattan tivesse dado uma passadinha por lá. A insegurança no estacionamento permanece. Escolhemos uma sessão mais cedo, às 15h50, para garantir a luminosidade na saída.

“Cloverfield” é o projeto cinematográfico de J.J. Adams, produtor de “Lost”. Na platéia oito pessoas, incluindo eu e Érica. E ainda mandaram dez minutos de trailers. Os críticos aplaudiram a ousadia do diretor Matt Reeves. Os espectadores passaram mal. É que os movimentos de câmera são tão “chicoteados” que provocam enjôo. Você sai da sessão frouxo, e não é de rir.

Não há trilha sonora. É como se estivéssemos assistindo a uma fita encontrada sob os escombros do Central Park. Você pensou em “A Bruxa de Blair”? Adams e Reeves levam a idéia de Daniel Myrick e Eduardo Sánchez ao extremo. Mas, para quem viu o documentário “9/11″, dos irmãos franceses Jules e Gedeon Naudet, fica clara a fonte de inspiração. As primeiras seqüências de destruição, por exemplo, lembram, e muito, as cenas reais após a queda do WTC.

Não vou me deter no roteiro, que considerei absolutamente desinteressante. O bacana em “Cloverfield” é que ele radicaliza na ilusão de que se está assistindo a um material bruto, autêntico, gravado no calor dos acontecimentos, sem cortes e sem edição.

Blog do Brown

In Blogs de amigos, Brodagem on Fevereiro 16, 2008 at 11:39 am

O jornalista José Bomfim está literalmente no ar. Vale a pena visitar o novíssimo Blog do Brown  e conferir os peixes graúdos que Bomfim consegue pescar (e tratar)  em sua rede de conhecimentos nesse oceano de informações. Saudações da blogosfera.

Numa manhã de sábado

In papo furado on Fevereiro 16, 2008 at 11:09 am

O segredo da felicidade estava o tempo inteiro na Bíblia. ”A cada dia o seu mal”.  Hoje é um sábado incrivelmente ensolarado. Dirigi até o trabalho rezando silenciosamente. É que na sexta, ao pegar meu carro no estacionamento, vi um casal remexendo o lixo do prédio atrás de restos. E conversei com minha mãe sobre um tema que a inquieta muito, o envelhecimento. Nunca ouvi, ou vi, a minha mãe daquele modo. Nunca a compreendi tão completamente. Então, hoje, fui para o trabalho (numa manhã de sábado incrivelmente ensolarada), rezando silenciosamente e agradecendo. Por viver dignamente num país miserável. Por estar envelhecendo ao lado da  minha mãe.

Felicidade é bicho caprichoso

In papo furado on Fevereiro 15, 2008 at 12:59 am

Mudo sempre. De tédio, não morro. Renovo. Energia parada atrai insetos. E, mesmo sem assunto sério, escrevo. Não prometo nada muito… Leiam o subtítulo de novo: ”poesia e papo furado”. Entre os dois, alterno. E, assim, passamos de um ano.  Detesto ter que dar conta do mundo. Basta o interno. O inferno são os outros? Então, deixa meu blogue quieto, inquieto, meio burro. De tudo, o universo precisa um pouco. Até do que é médio. O máximo bate no teto. Acaba danificado. E o rasteiro, e o réptil, também compõem o absoluto. Querer perfeição é absurdo até para quem anda em linha reta. Ah, deixa que eu siga meio estúpida, absolutamente média. Felicidade é bicho caprichoso. De repente, distraídos, a gente acerta. 

*Com referências óbvias ao “Poema em Linha Reta”, de Pessoa, e ao livro ”Distraídos, Venceremos”, de Paulo Leminski. 

Came on, Vogue!

In Imagens, papo furado on Fevereiro 13, 2008 at 12:23 pm

Não há nada mais irritante que a mania de levar máquinas digitais de fotografia para todo lugar. Noite dessas, num restaurante, mudei de lugar para escapar da luminosidade dos flashes. E nem eram turistas. Apenas amigos meio altos eternizando um encontro, possivelmente para atualizar o álbum do Orkut. Em outra ocasião, dentro de um teatro, minutos antes do início do espetáculo, meninas resolveram acrescentar novas aquisições ao fotolog. E tome-lhe mais espoucadas de luz nos olhos dos outros. E nem falei ainda sobre os celulares. Até no cinema, quando não tocam, eles acendem de repente no escuro, dando sustos em quem estava concentrado no filme. E qual o aparelho que não tem uma câmera embutida? Algumas chegam a 3 ou 4 megapixel. Mas basta o VGA, bem básico, para justificar o registro de qualquer movimento. Quem nunca tropeçou em gente posando nos corredores dos shoppings centers? E penso inevitavelmente nas fotos que uma grande amiga guarda da filha que morreu aos 14 anos em um acidente de carro. Foram tiradas pelo namorado da garota sem que ela soubesse, quando fotografar envolvia um filme. Foram tiradas poucas horas antes do acidente. E sem nenhuma pose.

Batismo

In poesia on Fevereiro 11, 2008 at 3:24 am

E por falar em saudade, Joana,
me mande notícias da filha
que você me deu pra batismo
numa carta vinda de São Paulo.

Me fale da vida, me diga
como sobreviver aos pedaços,
e encaixar as rodas nos trilhos,
pois eu, por aqui, descarrilho.

Me diga, Joana, me diga,
se levou de mim algo bom,
do ensino das constelações,
e de outras experimentações.

Escreva sobre as coisas boas,
me mande notícias da filha
que você me deu pra batismo
e que eu nunca abençoei.

Foi pela distância? Me diga.
Ou por algo que eu não falei?

Saudades do mestre

In I Ching, Teatro, papo furado on Fevereiro 11, 2008 at 12:30 am

w.jpgw.jpgw.jpg

Fim de semana de folgão. Dormi bastante no sábado e só saí de casa quando o dia escureceu. Olhando as opções de cinema no jornal de sexta, fiquei dividida entre “Onde os Fracos Não Têm Vez”, dos irmãos Coen, e “Sweeney Todd: O Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet”, de Tim Burton. Acabei indo ao teatro nos Barris com Érica ver a peça “Avental Todo Sujo de Ovo”, belo texto de Marcos Barbosa, atuação impecável de Christiane Veigga, e esticamos no “Beco da Rosália”, um bar  que fica perto do “Espaço Xisto Bahia”. No domingo, almoço com Érica no “Frango do Moura”, passeio de carro com meus sobrinhos, atrás de pão fresco no Cidade Jardim, um giro pelo condomínio com meu cachorro, Billy Negão. Bobeira santa o dia todo. Como deve ser. Antes de dormir, uma blogada básica. E saudades do meu I Ching…

Zimmerman!

In Imagens, Música, Vídeos on Fevereiro 8, 2008 at 2:04 am

Sobre animais e vegetais

In Big Brother, Televisão, papo furado on Fevereiro 7, 2008 at 11:39 pm

O ”Big Brother” não é coisa nossa. Foi criado por um holandês, o produtor John De Mol. E engana-se quem pensa que o formato é inspirado no livro de George Orwell. O próprio De Mol nega e diz que a idéia surgiu a partir de um projeto científico chamado “Biosfera 2″. A referência a “1984″ foi um modo de escapar do duvidoso “A Gaiola Dourada”, primeira sugestão de batismo. O “Biosfera 2″ foi criado em 1986 no deserto do Arizona e custou 200 milhões de dólares. Financiamento particular, feito por um empresário do Texas. Além de seres humanos, mais de 3 mil espécies (animais e vegetais) foram confinados numa espécie de redoma de vidro e aço com 12 mil metros quadrados e réplicas de montanhas, lagos e até um oceano artificial, com 4 mil litros de água. Em 1991, oito pessoas inauguraram a experiência e ficaram trancafiadas por dois anos. O projeto fracassou, embora a Universidade de Columbia tenha se interessado por ele em 1996. Não havia câmeras, apenas sensores de temperatura e umidade. 

Folia

In Carnaval, papo furado on Fevereiro 6, 2008 at 4:49 pm

Não me guardei para o Carnaval. Ele passou veloz. Como as mãos dos meliantes nos bolsos de quem vai espremido na pipoca, em busca da carteira ou de dinheiro solto. Em compensação, fui ao Bonfim este ano. E uma baiana de sorriso bonito batizou meus cabelos com alfazema no meio da ladeira da colina sagrada. Políticos passavam em bandos ruidosos. Estava com minhas irmãs e meu amor, o sol escaldante, algumas cervejas. E tive vontade de chorar no meio da zoeira e da alegria quando passou uma bandinha de sopros. Minha infância inteira ali na festa de largo. Meu pai de bermuda e camisa branca, sorriso imenso no rosto. Minha mãe cuidando dos convidados. Uma feijoada no fogo. E os vizinhos livrando uma grana em barracas improvisada ao longo do trajeto. Não me guardei para o Carnaval. Ele passou bem rápido. Como os catadores, pequenos e maltrapilhos, atrás de algo que brilha e não é ouro. O alumínio das latinhas amassadas.  A folia passou e não foi nada. Nada além de uma explosão de estrelas de todas as gradações. Que nem vi da minha janela. Que em nada me interessou. Eu me guardei intensamente para mim.

As melhores coisas da vida

In Citações, papo furado, poesia on Fevereiro 4, 2008 at 10:06 pm

“As melhores coisas da vida não servem para nada. O melhor da vida é contar estrelas, histórias, piadas. A inutilidade é mesmo uma delícia”

Do blog “Para Francisco”. E entre as inutilidades preciosas podemos incluir a poesia. 

Um poema em forma de blog

In Blogs de amigos, Citações, papo furado on Fevereiro 1, 2008 at 4:50 am

Ontem conheci o Para Francisco, blog da publicitária Christiana Guerra, de BH. Vi o link no Divinas e Cruéis. Só depois soube que já foi tema de matérias em duas revistas, “Criativa” e “Gloss”. O blog foi criado para que Christiana contasse ao filho, Francisco, ainda um bebê, a história de amor que ela viveu com o pai dele, Gui Fraga, também publicitário. Ele morreu em janeiro de 2007, quando ela estava no sétimo mês de gestação. Os post são bem escritos, com muitas fotos e os e-mails que eles trocavam. Um poema em forma de blog. Numa única noite, li todos os posts desde o início, como se fossem capítulos de um romance. Num dos textos que mais me tocou, ela relata o penúltimo dia de vida dele e os momentos em que se falaram e se viram. A última palavra que ele disse antes de descer as escadas e ir embora. O último e-mail que ela enviou para ele e que ficou sem resposta. Christiana Guerra tem ainda outro blog incrível, e menos triste, que é o Hoje Vou Assim, no qual registra o look diário com que vai trabalhar em fotos. Amor. Humor, como diria Oswald de Andrade. E por falar nisso: “Ei, Pi, eu já falei hoje que eu te amo? Você é a melhor coisa que aconteceu em minha vida. Quer casar comigo?” E até conheço a resposta que você vai dar: “Já me sinto assim. No coração”. Adoro escutar novamente.