No domingo, dia 9, o planeta fará três décadas sem Haia Lispector. E poucos sabem que Haia era o nome de batismo de Clarice. Nem eu. Só sei agora porque li na Folha de S. Paulo. Quando a família da escritora chegou ao Brasil, vinda de Tchechelnik, Ucrânia, todos mudaram o primeiro nome. Conversava com colegas outro dia sobre ela, e comentávamos possíveis influências. Alguém falou em Virginia Woolf. Eu falei em Katherine Mansfield. E, de repente, o papo era tradução e literatura. E me calei, pois não sei ler em nenhuma outra língua. Cecília Meireles, num poema, diz algo assim: “a minha ignorância enche-me de lágrimas as mãos”. Se eu fosse eu viajaria mais, inconsequentemente mesmo. Sem muita grana e sem destino. Sem medo de avião. Já teria ao menos fotos em Buenos Aires. Não conheço nem o Vale do Capão. Mas, voltando a Clarice, ela dizia que “quem tem medo não escreve”. Ah, se soubesse que hoje é preciso coragem até para falar sobre ela. É que Clarice provoca grandes paixões. De especialistas maníaco-depressivos com sérias tendências a serial killer. De intelectuais transbordantes de desprezo por tudo o que respira e goza. De estudantes de Letras, que esmiuçam seus textos, separando o que é rim do que é fígado. E de ignorantes lacrimosos e fascinados, como eu. Ah, eu coloquei aqui um vídeo, um trecho da última entrevista de Clarice, em 1977. Deve estar aqui ainda, creio, nos arquivos. Nos arquivos, aqui, quase um ano inteiro da minha vida. Foi em dezembro que o “Madame” nasceu, num caruru de Santa Bárbara, depois de algumas cervejas. De Clarice, eu só lembro que eu ia pra Escola de Teatro, no início da década de 90, com “Água Viva” na bolsa e a sensação é de que queimava. Por dentro. Tanta crueldade, meu Deus. E coragem. “Que havia em sua vísceras que fazia dela um ser?”. Eu não sei dizer. E, no entanto, criei uma galinha na cidade, até a idade de matar para comer, só pela curiosidade de ver o desenvolvimento de um dos mil pintos que caíam lá em casa, vindos de feiras e circos e parques.