Escorpião amarelo
Sobrevivi aos 15 anos. E, assim como os escorpiões amarelos, criei hábitos noturnos e crepusculares. Uma dose de álcool, algum fumo. Coisas normais para quem traz um ferrão cravado no peito. Casei, acasalei, emudeci, gritei durante os partos. Sou uma mulher absolutamente comum. Do tipo que prepara lanches deliciosos para os filhos, joga buraco com os amigos e faz amor duas vezes por semana com o marido. Olhem meus braços. Não há sinal de ferroadas. A cada manhã, escapo inteira do mesmo sonho.
Trecho do texto “Escorpião Amarelo”, ainda inédito.
Coração de galinha
Um vento muito frio fez com que acordasse. Estava sentado no mesmo lugar, o batente da porta da casa dela, onde adormecera na noite anterior agarrado a uma garrafa vazia de vinho. Bebera sozinho ali mesmo, enquanto aguardava que ela abrisse e aceitasse, enfim, uma conversa. Mas sabia bem lá no fundo que ela sempre o veria como uma espécie de assombração. E de certo modo também se sentia assim. Ao olhar-se no espelho e pensar no irmão, seu duplo, transformado em cinzas. Não podia esquecer, ela não deixava, que era um intruso naquela história de amor. Era o outro que ela queria em seu leito, aquele que lhe plantara no ventre um feto. Coube a ele apenas cuidar dos dois. E o fez com carinho e respeito, até que o coração ameaçou explodir no peito e ele desabou sobre ela sem jeito e sem medir as conseqüências. Ela o afastou e cuspiu em seu rosto. “Judas!”, gritou, desabalando em carreira até a casa. “Covarde”, ele murmurou, caindo de joelhos no meio do jardim. E chorou até doerem os olhos.
Trecho do romance “Coração de galinha”, ainda inédito.
Uivo
De um sumiço na vida, e ócio,
fiz a cutícula, e todos os dedos
agarraram-se uns nos outros,
em punho, um uivo, as unhas cravadas
na própria pele, gotículas
frias de suor no rosto, e um riso
que escorrega até onde os pés
cravam-se, as plantas, nessa terra
que é de ninguém. Nem soco,
nem brisa, que venha acordar
o que, morno, deslizará.
Inventário (Miguel Sanches Neto)
Ouço os sons da chuva
e de um carro que passa na rua.
Tudo me dá de ombros,
a mim e a meus escombros.Sofro como se existisse de fato
tal esta casa e este sapato
em que, por descuido, habito
com meu vazio sem vínculos.
A noite me sonega o ser.
Pela manhã serei o homem que sai,
funcionário cumpridor de regras,
aquele que tem fome e sede
e por isso vai ao mercado
e se entusiasma com queijos,
vinho pão fresco cerveja,
fugindo de toda incerteza.
Não. Não é este o tipo
de alimento que me sustenta
e sim a sombra que me inquieta
e que, com sua mão, me inventa.
Gerado na dor e na dúvida
no duro exercício da descrença,
sou vento enchendo roupas no varal
num inventário da própria ausência.
Riso
Eu vivia feliz o dia inteiro
até topar com uma pedra, a poesia,
e desaprender o riso fácil.
Mas este mar, Senhor, esta brisa
fazem qualquer um derreter-se
em elogios. E, no entanto,
a mesma paisagem nos desarma.
Ainda outro dia, no Solar,
quando pensei que nada mais valia,
revi a moça da Talidomida, e ela ria,
sem braços, diante do Sol.
Amor
Ter você nas mãos, amor,
é a coisa que mais me acalma,
como uma delicada flor,
que eu colho e deixo
de molho na alma, e que eu rego
com risos e lágrimas,
e que é toda prazer, toda dor,
paixão que me despetala,
e que sabe me ter como sou.
Balanço
O que faria diferença, o que transformaria 2008 no melhor ano da minha vida? Eu sei, logicamente. E nem preciso visitar o campo de concentração de Dachau para ter uma iluminação ou percorrer os 800 quilômetros do Caminho de Santiago. O primeiro passo para todos, acredito, é levar a sério a brincadeira do “se eu fosse eu”, proposta por Clarice Lispector. Há outro atalho. Mas os que não gostam de dizer palavrão podem trocar a palavra com “f” por ”dane-se!” Trabalharei quatro dias direto no feriado do Natal, incluindo o sábado e o domingo. Daí, como dizem lá em Pato Branco, viajo para Lençóis depois da virada do ano. Planejo ficar uma semana por lá. Anotações de um dia ensolarado que será de trampo e sem praia.
Se as minhas mãos pudessem desfolhar (Garcia Lorca)
Eu pronuncio teu nome
nas noites escuras,
quando vêm os astros
beber na lua
e dormem nas ramagens
das frondes ocultas.
E eu me sinto oco
de paixão e de música.
Louco relógio que canta
mortas horas antigas.
Eu pronuncio teu nome,
nesta noite escura,
e teu nome me soa
mais distante que nunca.
Mais distante que todas as estrelas
e mais dolente que a mansa chuva.
Amar-te-ei como então
alguma vez? Que culpa
tem meu coração?
Se a névoa se esfuma,
que outra paixão me espera?
Será tranqüila e pura?
Se meus dedos pudessem
desfolhar a lua!!
Poeminha-clichê
Levo a primavera entre os dentes.
E um gosto de flor na boca. Sabor
de pétalas-chiclete. Vê, a vida
passa numa boa, mesmo que morra
o seu amor. A esperança ignora
toda dor. E escondido,
há sempre um sonho a espreitar
em nossa alma o que é divino.
Vê, a vida ensina a caminhar.
É só seguir, botar o pé
nessa estrada que não finda.
E como é linda. Levo
a primavera entre os dentes.
E a certeza de que amar
ainda é a melhor fórmula.
E presente.
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