Kátia Borges

Posts de Dezembro, 2007

Escorpião amarelo

In Citações, Teatro on Dezembro 30, 2007 at 1:38 am

Sobrevivi aos 15 anos. E, assim como os escorpiões amarelos, criei hábitos noturnos e crepusculares. Uma dose de álcool, algum fumo. Coisas normais para quem traz um ferrão cravado no peito. Casei, acasalei, emudeci, gritei durante os partos. Sou uma mulher absolutamente comum. Do tipo que prepara lanches deliciosos para os filhos, joga buraco com os amigos e faz amor duas vezes por semana com o marido. Olhem meus braços. Não há sinal de ferroadas. A cada manhã, escapo inteira do mesmo sonho.

Trecho do texto “Escorpião Amarelo”, ainda inédito.

Coração de galinha

In Trechos de livros on Dezembro 30, 2007 at 1:13 am

Um vento muito frio fez com que acordasse. Estava sentado no mesmo lugar, o batente da porta da casa dela, onde adormecera na noite anterior agarrado a uma garrafa vazia de vinho. Bebera sozinho ali mesmo, enquanto aguardava que ela abrisse e aceitasse, enfim, uma conversa. Mas sabia bem lá no fundo que ela sempre o veria como uma espécie de assombração. E de certo modo também se sentia assim. Ao olhar-se no espelho e pensar no irmão, seu duplo, transformado em cinzas. Não podia esquecer, ela não deixava, que era um intruso naquela história de amor. Era o outro que ela queria em seu leito, aquele que lhe plantara no ventre um feto. Coube a ele apenas cuidar dos dois. E o fez com carinho e respeito, até que o coração ameaçou explodir no peito e ele desabou sobre ela sem jeito e sem medir as conseqüências. Ela o afastou e cuspiu em seu rosto. “Judas!”, gritou, desabalando em carreira até a casa. “Covarde”, ele murmurou, caindo de joelhos no meio do jardim. E chorou até doerem os olhos.

Trecho do romance “Coração de galinha”, ainda inédito.

Uivo

In poesia on Dezembro 28, 2007 at 4:35 pm

De um sumiço na vida, e ócio,
fiz a cutícula, e todos os dedos
agarraram-se uns nos outros,
em punho, um uivo, as unhas cravadas
na própria pele, gotículas
frias de suor no rosto, e um riso
que escorrega até onde os pés
cravam-se, as plantas, nessa terra
que é de ninguém. Nem soco,
nem brisa, que venha acordar
o que, morno, deslizará.

Inventário (Miguel Sanches Neto)

In Miguel Sanches Neto, poesia on Dezembro 26, 2007 at 4:18 pm


Ouço os sons da chuva
e de um carro que passa na rua.
Tudo me dá de ombros,
a mim e a meus escombros.
Sofro como se existisse de fato
tal esta casa e este sapato
em que, por descuido, habito
com meu vazio sem vínculos.

A noite me sonega o ser.
Pela manhã serei o homem que sai,
funcionário cumpridor de regras,
aquele que tem fome e sede

e por isso vai ao mercado
e se entusiasma com queijos,
vinho pão fresco cerveja,
fugindo de toda incerteza.

Não. Não é este o tipo
de alimento que me sustenta
e sim a sombra que me inquieta
e que, com sua mão, me inventa.

Gerado na dor e na dúvida
no duro exercício da descrença,
sou vento enchendo roupas no varal
num inventário da própria ausência.

música pra vida inteira

In Imagens, Música, Vídeos on Dezembro 25, 2007 at 1:31 pm



Riso

In poesia on Dezembro 24, 2007 at 1:43 am

Eu vivia feliz o dia inteiro
até topar com uma pedra, a poesia,
e desaprender o riso fácil.
Mas este mar, Senhor, esta brisa
fazem qualquer um derreter-se
em elogios. E, no entanto,
a mesma paisagem nos desarma.
Ainda outro dia, no Solar,
quando pensei que nada mais valia,
revi a moça da Talidomida, e ela ria,
sem braços, diante do Sol.

Amor

In poesia on Dezembro 22, 2007 at 4:32 pm

Ter você nas mãos, amor,
é a coisa que mais me acalma,
como uma delicada flor,
que eu colho e deixo
de molho na alma, e que eu rego
com risos e lágrimas,
e que é toda prazer, toda dor,
paixão que me despetala,
e que sabe me ter como sou.

Balanço

In Clarice Lispector, férias, papo furado on Dezembro 22, 2007 at 1:20 pm

O que faria diferença, o que transformaria 2008 no melhor ano da minha vida? Eu sei, logicamente. E nem preciso visitar o campo de concentração de Dachau para ter uma iluminação ou percorrer os 800 quilômetros do Caminho de Santiago. O primeiro passo para todos, acredito, é levar a sério a brincadeira do “se eu fosse eu”, proposta por Clarice Lispector. Há outro atalho. Mas os que não gostam de dizer palavrão podem trocar a palavra com “f” por ”dane-se!” Trabalharei quatro dias direto no feriado do Natal, incluindo o sábado e o domingo. Daí, como dizem lá em Pato Branco, viajo para Lençóis depois da virada do ano. Planejo ficar uma semana por lá. Anotações de um dia ensolarado que será de trampo e sem praia.

Se as minhas mãos pudessem desfolhar (Garcia Lorca)

In Garcia Lorca, poesia on Dezembro 21, 2007 at 10:42 am


Eu pronuncio teu nome
nas noites escuras,
quando vêm os astros
beber na lua
e dormem nas ramagens
das frondes ocultas.
E eu me sinto oco
de paixão e de música.
Louco relógio que canta
mortas horas antigas.

Eu pronuncio teu nome,
nesta noite escura,
e teu nome me soa
mais distante que nunca.
Mais distante que todas as estrelas
e mais dolente que a mansa chuva.

Amar-te-ei como então
alguma vez? Que culpa
tem meu coração?
Se a névoa se esfuma,
que outra paixão me espera?
Será tranqüila e pura?
Se meus dedos pudessem
desfolhar a lua!!

Poeminha-clichê

In poesia on Dezembro 21, 2007 at 10:30 am

Levo a primavera entre os dentes.
E um gosto de flor na boca. Sabor
de pétalas-chiclete. Vê, a vida
passa numa boa, mesmo que morra
o seu amor. A esperança ignora
toda dor. E escondido,
há sempre um sonho a espreitar
em nossa alma o que é divino.
Vê, a vida ensina a caminhar.
É só seguir, botar o pé
nessa estrada que não finda.
E como é linda. Levo
a primavera entre os dentes.
E a certeza de que amar
ainda é a melhor fórmula.
E presente.

Mar

In poesia on Dezembro 19, 2007 at 11:03 am

Eu falaria do mar se soubesse
compreender, das águas, o mistério.
Mas tenho os pés presos à terra
e nada sei de navegar. O mar
é monstro em meus sonhos. Morre
espumando e me amedronta. Imensidões
me deixam tonta. Só presa ao chão posso voar

O melhor Natal da família Foster-Bernard

In Celebridades, Cinema, Imagens, papo furado on Dezembro 18, 2007 at 4:20 am

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E fechando 2007, Jodie Foster finalmente assumiu. Eleita uma das 100 mulheres mais poderosas do mundo do entretenimento, a sisuda atriz dedicou o prêmio publicamente para a produtora Cydney Bernard, com quem vive há 14 anos. O casal tem dois filhos, de 9 e 6 anos, gerados por Jodie.

Titia? Eu?

In Divagações, Família, papo furado on Dezembro 18, 2007 at 3:25 am

Minha mãe não gosta do Natal. Para ela, uma data triste. Hoje eu entendo a razão. Como achar o Natal uma festa bacana quando se perdeu boa parte dos irmãos e os pais? Mas, para mim, Natal é uma festa de resistência. Todos os anos, num casebre ou numa mansão, monto a árvore, acendo as luzes, preparo a ceia. Ontem, perto das 17 horas, fui ao aeroporto pegar minha irmã e meu sobrinho, vindos de Joinville. Minha sobrinha, Mariana, chegou um pouco depois, do mesmo lugar. Eu contava os minutos para vê-la. Ela mora fora há mais de um ano. Finalmente reunidos (minha irmã mais velha sorrindo de orelha a orelha), entendi que não errei em “Santiago”. Envelhecer é mesmo uma grande alegria. Eu colocava Mariana para dormir no meu ombro. Hoje, ela tem 1,75 de altura. De lá até aqui, 19 anos! Hoje, por volta das 23 horas, vou ao aeroporto novamente. Pegar minha amiga Glória, que chega da Alemanha. Quando nos conhecemos, eu tinha 12 anos! Natal para mim também é uma data melancólica. Mas busco nela a afirmação da minha fé. Tarde da noite, conversei longamente com o ex-namorado de minha sobrinha no msn. Ele mora numa cidade chamada Gaspar, perto de Joinville. E estava triste. Falamos sobre amor, sonhos e  I Ching. É bom estar cercado de gente, ter família e amigos, amar. E nem pensem que fiquei para titia e, por isso, estou sentimental além da conta. No último final de semana, dormi embalada por um carinho impossível de descrever com palavras. 

Na estrada

In Blogs de amigos, Citações, Viagem, férias, papo furado on Dezembro 17, 2007 at 1:36 am

Adoro listas, como a que fez o meu amigo Márcio no Cova Rasa. Mas sou dispersa demais para isso. Num balanço de 2007, diria que foi um ano difícil, embora eu tenha obtido pequenas vitórias materiais e engatado alguns projetos interessantes. No dia 28, saio de férias. Sem muita grana para viajar, mas com a firme determinação de conhecer o Vale do Capão. Olhando para trás, vejo que fiz um esforço no sentido de melhorar a minha vida de um modo geral.  Mas que alguns processos devem atravessar comigo para o próximo ano. Fico feliz ao constatar que mantive o coração aberto para as pessoas. E que cresci por dentro ao reconhecer meus erros, que não foram poucos. Mas o estresse me torturou nos últimos trezentos e tantos dias e sofri por antecipação em numerosas ocasiões. A leveza é a maior conquista de um capricorniano. Batalhei por ela ao longo das noites e dos dias. E a luta continua.   

Ilha

In poesia on Dezembro 12, 2007 at 12:11 am

Penso em vocês, enquanto atravesso
a baía de todos os santos sozinha
num velho ferry boat. Tempos de sonho,
sacolejando numa Kombi até Barra Grande.
E de amigos desgarrados, agarrados
uns nos outros, curtidos em inacreditáveis
garrafões de vinho. Éramos jovens
e nossas vidas pareciam um curta alternativo,
ou um longa de cinema indie. Penso em vocês,
enquanto atravesso a vida, as pistas, num fox.
Tempos de sono, e de acordar bem cedo
no dia seguinte, e de cartão de ponto,
e de vinho caro que não deixa ninguém alto,
e de barras grandes nada divertidas.

The joker (na versão de Steve Miller Band)

In Imagens, Música, Vídeos on Dezembro 11, 2007 at 11:05 pm

Jorge de Lima, panfletário do Caos (Roberto Piva)

In Roberto Piva, poesia on Dezembro 11, 2007 at 10:50 am

Foi no dia 31 de dezembro de 1961 que te compreendi, Jorge de Lima,
enquanto eu caminhava pelas praças agitadas pela melancolia presente
            na minha memória devorada pelo azul
eu soube decifrar os teus jogos noturnos
indisfarçável entre as flores
uníssonos em tua cabeça de prata e plantas ampliadas
como teus olhos crescem na paisagem, Jorge de Lima, e como tua boca
            palpita nos bulevares oxidados pela névoa
uma constelação de cinza esboroa-se na contemplação inconsútil
            de tua túnica
e um milhão de vagalumes trazendo estranhas tatuagens no ventre
            se despedaçam contra os ninhos da Eternidade
é neste momento de fermento e agonia que te invoco, grande alucinado
            querido e estranho professor do Caos, sabendo que teu nome deve
            estar com um talismã nos lábios de todos os meninos
 
Paranóia (1963)

Receita de ano novo (Drummond)

In Drummond, poesia on Dezembro 10, 2007 at 4:00 am

Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)
 

Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumidas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.
 

Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.

Atrás dos olhos

In Citações, Imagens on Dezembro 8, 2007 at 2:34 am

Oi, gente, desculpa a overdose de imagens. Deu vontade de homenagear pessoas. Infelizmente, não localizei fotos de algumas, tão ou mais queridas, como Gerana Damulakis e Ângela Vilma, entre outras.  

Retrospectiva de final de ano (gente das letras)

In Brodagem, Escritores, Imagens on Dezembro 8, 2007 at 2:21 am

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Retrospectiva de final de ano (mais gente das letras)

In Brodagem, Escritores, Imagens on Dezembro 8, 2007 at 1:02 am

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Retrospectiva de final de ano (mais gente das letras)

In Brodagem, Escritores, Imagens on Dezembro 7, 2007 at 3:32 pm

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Retropectiva de final de ano (amigos e amores)

In Família, Imagens on Dezembro 7, 2007 at 2:34 am

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Mais amores e amigos

In Sem-categoria on Dezembro 7, 2007 at 1:48 am

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À própria sorte

In Sem-categoria on Dezembro 6, 2007 at 10:33 pm

Pensara em tudo com zelo:
se desligasse o gás,
as velas, apagadas,
nenhum risco trariam
à solidez da casa.
Sim, se trancasse
a porta com duas voltas
seguras, no bolso, a chave
iria e, na bolsa, a outra cópia.
E ninguém poderia
entrar desavisadamente,
nem nenhuma ventania
varreria os móveis,
acariciando a poeira,
pois as janelas fechadas
vedariam hermeticamente
tudo. Mas, uma vez lá fora,
lembrara do cachorro:
Há comida e água nos potes?
Decidida, teria que esquecê-lo,
deixá-lo, deixar-se, entregues à própria sorte.

Romana

In Sem-categoria on Dezembro 6, 2007 at 6:12 pm

E, imaginando que eu venceria
de qualquer modo, ele parou de lutar.
E nem sabia que eu já estava,
por dentro, quase derrotado. Me animei
diante do rosto que, vermelho, resfolegava.
Vamos? Desafiei como se tivesse força
para mais um round. Era um modo
insano de lutar. Eu estava agoniado
de tão sem fôlego. Desisto. Ele disse
e ainda esperei alguns minutos,
antes de deixar o corpo inteiro desabar.

In Sem-categoria on Dezembro 6, 2007 at 5:05 pm

No domingo, dia 9, o planeta fará três décadas sem Haia Lispector. E poucos sabem que Haia era o nome de batismo de Clarice. Nem eu. Só sei agora porque li na Folha de S. Paulo. Quando a família da escritora chegou ao Brasil, vinda de Tchechelnik, Ucrânia, todos mudaram o primeiro nome. Conversava com colegas outro dia sobre ela, e comentávamos possíveis influências. Alguém falou em Virginia Woolf. Eu falei em Katherine Mansfield. E, de repente, o papo era tradução e literatura. E me calei, pois não sei ler em nenhuma outra língua. Cecília Meireles, num poema, diz algo assim: “a minha ignorância enche-me de lágrimas as mãos”. Se eu fosse eu viajaria mais, inconsequentemente mesmo. Sem muita grana e sem destino. Sem medo de avião. Já teria ao menos fotos em Buenos Aires. Não conheço nem o Vale do Capão. Mas, voltando a Clarice, ela dizia que “quem tem medo não escreve”. Ah, se soubesse que hoje é preciso coragem até para falar sobre ela. É que Clarice provoca grandes paixões. De especialistas maníaco-depressivos com sérias tendências a serial killer. De intelectuais transbordantes de desprezo por tudo o que respira e goza. De estudantes de Letras, que esmiuçam seus textos, separando o que é rim do que é fígado. E de ignorantes lacrimosos e fascinados, como eu. Ah, eu coloquei aqui um vídeo, um trecho da última entrevista de Clarice, em 1977. Deve estar aqui ainda, creio, nos arquivos. Nos arquivos, aqui, quase um ano inteiro da minha vida. Foi em dezembro que o “Madame” nasceu, num caruru de Santa Bárbara, depois de algumas cervejas. De Clarice, eu só lembro que eu ia pra Escola de Teatro, no início da década de 90, com “Água Viva” na bolsa e a sensação é de que queimava. Por dentro. Tanta crueldade, meu Deus. E coragem. “Que havia em sua vísceras que fazia dela um ser?”. Eu não sei dizer. E, no entanto, criei uma galinha na cidade, até a idade de matar para comer, só pela curiosidade de ver o desenvolvimento de um dos mil pintos que caíam lá em casa, vindos de feiras e circos e parques.

In Sem-categoria on Dezembro 5, 2007 at 3:43 pm

Li ontem em A TARDE que o Lar Irmã Maria Luiza está devendo mais de R$ 31 mil, entre contas de luz, água e aluguel. A instituição, distribuída em três casarões caindo de velhos, na Cidade Baixa, abriga cerca de 60 idosos com problemas de locomoção. Eles precisam de fraldas geriátricas, produtos de higiene, alimentos, remédios básicos (xaropes e analgésicos) e, claro, dinheiro. Não se acanhe, nem precisa ir lá. A conta corrente para depósito é 235683-8, na agência 0904-0,  Banco do Brasil (foi o divulgado pelo jornal). Mas, caso tenha tempo, e queira levar algo, uma cesta básica ou uma palavra amiga, o endereço é Rua do Imperador, nº 61, Mares. O telefone é 3314-2885. Eu estive lá  e pude constatar que o trabalho é sério e que aquelas pessoas realmente necessitam de ajuda, qualquer ajuda.

Eu sou vertical (Sylvia Plath)

In Sem-categoria on Dezembro 5, 2007 at 1:23 am

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Mas não que não quisesse ser horizontal.
Não sou árvore com minha raiz no solo,
Sugando minerais e amor materno,
Para a cada março refulgir em folha,
Nem sou a beleza de um canteiro
Colhendo meu quinhão de Ohs e me exibindo em cor,
Desconhecendo que me despetalo em breve.
Comparados a mim, uma árvore é imortal
E um pendão nada alto, embora mais assombroso.
O que eu quero é a longevidade de uma e a audácia do outro.

À luz infinitesimal das estrelas,
Flores e árvores trescalam seus frios perfumes.
Eu me movo entre elas, mas nenhuma me nota.
Chego a pensar que pareço o mais perfeitamente
Com elas quando estou dormindo —
Os pensamentos esmaecem.
É mais natural para mim deitar.
Céu e eu então animamos a prosa.
Hei de servir no dia em que deitar afinal:
E as árvores aí talvez em mim tocassem e as flores comigo se ocupassem.

Tradução: Vinicius Dantas

minha irmã caçula mandou pra mim

In Sem-categoria on Dezembro 4, 2007 at 3:07 pm

Santa Bárbara dos tempos violentos
vosso rosto me aparece num clarão
quando um raio rasga
a imensa escuridão

Muitos ventos, muitos ventos
passam por meu coração
na carícia quase bruta
do poder de vossa mão
Senhora, me iluminai
Clareai meus pensamentos
Santa Bárbara
dos tempos violentos

Santa Bárbara dos tempos violentos
vosso rosto me aparece num clarão
quando um raio rasga
a imensa escuridão

Vejo em vossos elementos
a chuva não vai parar
até ter deixado limpos
meu corpo e minha alma
Dona dos meus temporais,
Senhora de olhos cinzentos,
Santa Bárbara dos tempos violentos

Santa Bárbara dos tempos violentos
vosso rosto me aparece num clarão
quando um raio rasga
a imensa escuridão

Santa Bárbara dos tempos violentos
vosso rosto me aparece num clarão
quando um raio rasga
a imensa escuridão

(Fátima Guedes)

Santa Bárbara

In Sem-categoria on Dezembro 4, 2007 at 1:47 am

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Foi meu pai quem me ensinou a honrar Santa Bárbara. O caruru era sagrado a cada 4 de dezembro e, lá em casa, havia uma imagem igualzinha a essa na parede, emoldurada em um quadro, recortada por pequenos furos, com uma lâmpada ao fundo. Hoje, bastante avariado, ele está com a minha irmã mais velha, batizada justamente como Ana Bárbara (Ana é o nome de nossa avó materna). Minha irmã caçula, Paula, herdou o nome de nossa avó paterna, Alice. Eu? Bem, dizem que Kátia Regina era nome de uma famosa vedete da época. Minha irmã mais velha decidiu batizar a sua filha caçula como Júlia, que era como nosso pai chamava carinhosamente a nossa mãe, Julinda. Quando eu tiver uma filha, ela se chamará Cecília. E acho que entenderá.

Duas, três coisas…

In Sem-categoria on Dezembro 4, 2007 at 1:29 am

Não escrevi nada sobre os cinco anos de morte do meu pai, no sábado. Só hoje fui ao cemitério com a minha mãe. O aniversário de morte do meu pai gerou problemas em família. Mas não escreverei nada sobre isso. Eu e minha mãe compramos rosas vermelhas e amarelas. Rezamos. Uma mulher limpou o jázigo. Ficou bonito e desajeitado, as flores enfiadas ao redor da pedra. Na volta, no carro, chorei bastante, recordando o período da doença. E notei que ainda hoje processo o cansaço daqueles dias. Duas coisas não me saem da cabeça. O exame que ele fez, antes da radioterapia, quando eu soube que já não havia nada a ser feito. E o último dia de vida dele, o pior de toda a minha.  No sábado, dormindo durante a tarde, eu sonhei com o meu pai. Ele estava gordo e forte, bem mais jovem, e eu falava com alguém que ele estava resistindo bem há cinco anos, justo o período transcorrido desde a morte. Minha irmã mais velha aparecia e ele surgia no umbral da porta, olhava para ela, muito sério, e entrava em casa. Acordei com a sensação de tê-lo visto de algum modo e isso me fez bem. Não, eu nunca fui boa filha. Minha mãe dirá o contrário. Mas tenho meus motivos. Eu fui apenas forte e relativamente presente quando todos sumiram. Mas a velha couraça me impediu de expressar afeto, de simplesmente abraçá-lo quando a notícia foi a pior possível. E ele esteve sozinho, embora ao nosso lado, como ficam todos quando a morte os desafia. Dizem que os blogs não deviam ser usados para desabafos. Mas confio a Franciel os horizontes do planeta. E vou lá no Ingresia conferir se há algo errado nos movimentos de rotação e translação. De um jeito ou de outro, quero crer, ao girar em torno de nossos umbigos, também colaboramos para o equilíbrio da blogosfera.    

Se eu fosse eu?

In Sem-categoria on Dezembro 3, 2007 at 3:15 pm

“Quando não sei onde guardei um papel importante e a procura se revela inútil, pergunto-me: se eu fosse eu e tivesse um papel muito importante para guardar, que lugar escolheria? Às vezes dá certo. Mas muitas vezes fico tão pressionada pela frase “se eu fosse eu”, que a procura do papel se torna secundária, e começo a pensar. Diria melhor, sentir. E não me sinto bem. Experimente: se você fosse você, como seria e o que faria? Logo de início se sente um constrangimento: a mentira em que nos acomodamos acabou de ser levemente locomovida do lugar em que se acomodara. No entanto, já li biografias de pessoas que de repente passaram a ser elas mesmas, e mudaram inteiramente de vida. Acho que se eu fosse realmente eu, os amigos não me cumprimentariam na rua porque até minha fisionomia teria mudado. Como? Não sei. Metade das coisas que eu faria se eu fosse eu, não posso contar. Acho, por exemplo, que por um certo motivo eu terminaria presa na cadeia. E se eu fosse eu daria tudo que é meu, e confiaria o futuro ao futuro. “Se eu fosse eu” parece representar o nosso maior perigo de viver, parece a entrada nova do desconhecido. No entanto, tenho a intuição de que, passadas as primeiras chamadas loucuras da festa que seria, teríamos enfim a experiência do mundo. Bem sei, experimentaríamos enfim em pleno a dor do mundo. E a nossa dor, aquela que aprendemos a não sentir. Mas também seríamos por vezes tomados de um êxtase de alegria pura e legítima que mal posso adivinhar. Não, acho que já estou de algum modo adivinhando porque me senti sorrindo e também senti uma espécie de pudor que se tem diante do que é grande demais”.

Clarice Lispector.

Primeira lição (do Iching)

In Sem-categoria on Dezembro 3, 2007 at 1:48 pm

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“Não fique triste, seja como o Sol ao meio-dia”

Estandarte

In Sem-categoria on Dezembro 3, 2007 at 12:51 pm

Amores em fogo no comboio das almas
e sigo. Dentro das imagens, Salvador envidraçada.
E minhas mensagens boíam nas águas da baía,
um pedido de sexo na garrafa, gim, bebida selvagem,
meu cabelos ardem em fogo no comboio das artes,
enquanto mendigos circulam, palhaços do sonho, e do pesadelo,
no pátio do Icba. Ardo inteira quando a menina, certeira,
incendeia as pick ups. Ah, venha, venham,
e todos os segredos serão revelados, sim, aqui nesta mesa,
uns chegam, outros partem, e já não se sabe mais
qual grupo sentou primeiro e hasteou o estandarte

O show

In Sem-categoria on Dezembro 2, 2007 at 6:31 pm

Marina Lima passava suas férias de Verão na rua em que morei, a Avenida Fernandes da Cunha, durante toda a infância e boa parte da adolescência. Ela ficava hospedada no Colon, único prédio residencial de dez andares da Cidade Baixa, onde vivia a família de um tio que era diretor da extinta Saborosa. Todo ano era sagrado vir para a Bahia e ficar lá na rua da minha infância. Um dia, ela até desfilou num trio elétrico por lá, quando sua prima foi eleita rainha da fábrica de cervejas. Todas essas histórias foi Marina quem me contou há 24 anos num jantar de fãs.  Eu tinha 16. Muitos anos depois, já adulta, fui arrastada ao camarim dela por Marcos Uzel na saída de um show. Eu queria ir, mas achava que tietagem já não cabia no meu script. No sábado, Uzel também estava lá. Foi um espetáculo especial, para fãs, um reencontro. E, aos poucos, vou revelando mais histórias da série “Meu passado me condena”.