Acho que agora, sim, encontrei a cara do blog: Sylvia Plath conferindo seus escritos ao ar livre numa máquina de escrever. Só falta ajustar uns detalhes. Hoje foi um dia especialmente cansativo. O encontro com estudantes na Facom me deixou extenuada. O I Ching havia indicado o hexagrama 5, que é “a espera/nutrição”. Quando acabou, fui pro trabalho e, depois, visitei uma prima querida na Cidade Baixa com a minha mãe. Quando cheguei em casa, com planos de uma saída noturna, desabei e desisti de tudo. Preferi ficar bem quieta no meu canto, com o computador no colo, postando desabafos no blog e vendo “Paraíso Tropical”. Não, não quero falar sobre a morte de Taís Grimaldi. Há coisas mais importantes me inquietando. Minha mãe, que percebo cada vez mais frágil, segurando no meu braço para manter o equilíbrio. Minha conta no banco. Uma dorzinha lombar esquisita. O interesse obsessivo por medicina. As antologias que demoram para ficar prontas. A falta de vontade de juntar os poemas inéditos e enviar para Luiz Antonio. Os prazos, todos os prazos.
Agosto 2007
Agosto 31, 2007
Agosto 30, 2007
Os blogs estão parados
neste final de agosto.
Nenhum post irado ou poesia,
virtualmente pendurada
neste varal invisível,
sacudirá ao vento a palavra.
“Umbigo, umblogo”, anota o Blag,
escancarando a lógica.
Agosto 30, 2007
“Mala como livro e livro como bagagem. Porque a vida é algo que se leva às costas, com custo, ou sobre as mãos, com delicadeza”. (Ondjaki)
Esta frase veio num e-mail que recebi, e grudou na minha cabeça. Ondjaki concorre ao Portugal Telecom deste ano. Saiu a lista ontem.
Agosto 29, 2007
É o meu amor que me guarda das urgências,
e pega minha mão e me carrega: “vamos
para algum lugar sossegado conversar?”
E eu deixo que me ensine sobre o tempo
e o mistério das coisas simples e sagradas,
como dormir um pouco mais, ter calma,
e redescobrir o universo ao viajar. É o meu amor,
sim, que me guarda. Das urgências deste mundo,
sempre sem trégua, e me faz depor as armas e as reservas.
Agosto 28, 2007
Esperaram a noite toda o que não veio,
o herói da festa, que iria trazer consigo
a alegria de um ano inteiro. Ficou o gelo,
repartido nos copos, pequenas pedras,
no qual cada um mexeria com seus dedos,
a disfarçar o incômodo daquele encontro
e o medo. DJ anônimo, o autor do bolo
pichava frases com chantily nas paredes,
já que ninguém queria um pedaço, e só
o desespero, na pista de dança, evoluía
de algum modo, dentro da madrugada,
e tonto, e torto. E nada compensaria a falta,
o fato: o herói da festa não chegaria nunca.
Agosto 27, 2007
Agosto 26, 2007
Mulheres e crianças são as primeiras
que desistem de afundar navios. Sim,
mas elas têm prioridade nos naufrágios,
lugares assegurados nos botes, as bóias,
enquantos aos homens restam os mastros e o fim.
Agosto 22, 2007
Para conversar com as plantas do apartamento em que vivia só, ela inventou um novo dialeto, o sem raízes. Infalível. Até para convencer as samambaias a não entrarem em pânico. Do alto, a moça das cicatrizes nos pulsos ensaia novo salto. “Me convença”, quase disse. Mas calaram durante tantos anos… O que era então aquele telefonema? Enquanto desmontava todo o cenário para o suicídio, e seguia em direção ao aparelho, algo dentro dela acendeu. Tão fortemente claro que ela olhou para a noite lá fora, seu espelho, e viu o céu iluminado.
Agosto 21, 2007
E traziam nos pulsos, as duas, cicatrizes de suicídio. Um passado com o qual cada uma tratara de lidar muito a seu modo. A mais jovem, feito gato persa, desgarrara de tudo suas longas unhas. E vivia a correr mundo, ousando aviar receitas e abrir os corpos dos outros. Sempre a dar e consumir placebos. A outra arrumou um marido, cão de íntimos, e pariu duas crianças que trazia cativas em sua casa de cerca branca e varanda. Entretida em deixar impecáveis as roupas, e não queimar ou azedar o almoço, e estar magra para caber na cama e nos vestidos. Até que se viram, um dia, sem alvoroço. E notaram que traziam em seus pulsos, as duas, cicatrizes de suicídio.
Agosto 20, 2007
É meu coração que atropela os sinais,
em busca de um verde que não amadureça,
até que a dor atravesse, cheia de certezas,
imensas rodovias que cortam capitais.
É meu coração que parte, vermelho,
sangue on the road, batendo acelerado,
dentro do peito, disparado, na pista da noite.
É meu coração que se desmancha, amarelo,
molengo doce, feito marshmallow,
e se esparrama no asfalto.
