Agosto 2007


Acho que agora, sim, encontrei a cara do blog: Sylvia Plath conferindo seus escritos ao ar livre numa máquina de escrever. Só falta ajustar uns detalhes. Hoje foi um dia especialmente cansativo. O encontro com estudantes na Facom me deixou extenuada. O I Ching havia indicado o hexagrama 5, que é “a espera/nutrição”. Quando acabou, fui pro trabalho e, depois, visitei uma prima querida na Cidade Baixa com a minha mãe. Quando cheguei em casa, com planos de uma saída noturna, desabei e desisti de tudo. Preferi ficar bem quieta no meu canto, com o computador no colo, postando desabafos no blog e vendo “Paraíso Tropical”. Não, não quero falar sobre a morte de Taís Grimaldi. Há coisas mais importantes me inquietando. Minha mãe, que percebo cada vez mais frágil, segurando no meu braço para manter o equilíbrio. Minha conta no banco. Uma dorzinha lombar esquisita. O interesse obsessivo por medicina. As antologias que demoram para ficar prontas. A falta de vontade de juntar os poemas inéditos e enviar para Luiz Antonio. Os prazos, todos os prazos.

Os blogs estão parados
neste final de agosto.
Nenhum post irado ou poesia,
virtualmente pendurada
neste varal invisível,
sacudirá ao vento a palavra.
“Umbigo, umblogo”, anota o Blag,
escancarando a lógica.

“Mala como livro e livro como bagagem. Porque a vida é algo que se leva às costas, com custo, ou sobre as mãos, com delicadeza”. (Ondjaki)

Esta frase veio num e-mail que recebi, e grudou na minha cabeça. Ondjaki concorre ao Portugal Telecom deste ano. Saiu a lista ontem.

É o meu amor que me guarda das urgências,
e pega minha mão e me carrega: “vamos
para algum lugar sossegado conversar?”
E eu deixo que me ensine sobre o tempo
e o mistério das coisas simples e sagradas,
como dormir um pouco mais, ter calma,
e redescobrir o universo ao viajar. É o meu amor,
sim, que me guarda. Das urgências deste mundo,
sempre sem trégua, e me faz depor as armas e as reservas.

Esperaram a noite toda o que não veio,
o herói da festa, que iria trazer consigo
a alegria de um ano inteiro. Ficou o gelo,
repartido nos copos, pequenas pedras,
no qual cada um mexeria com seus dedos,
a disfarçar o incômodo daquele encontro
e o medo. DJ anônimo, o autor do bolo
pichava frases com chantily nas paredes,
já que ninguém queria um pedaço, e só
o desespero, na pista de dança, evoluía
de algum modo, dentro da madrugada,
e tonto, e torto. E nada compensaria a falta,
o fato: o herói da festa não chegaria nunca.


“Pra nunca perder esse riso largo, essa simpatia estampada no rosto”

Mulheres e crianças são as primeiras
que desistem de afundar navios. Sim,
mas elas têm prioridade nos naufrágios,
lugares assegurados nos botes, as bóias,
enquantos aos homens restam os mastros e o fim.

Para conversar com as plantas do apartamento em que vivia só, ela inventou um novo dialeto, o sem raízes. Infalível. Até para convencer as samambaias a não entrarem em pânico. Do alto, a moça das cicatrizes nos pulsos ensaia novo salto. “Me convença”, quase disse. Mas calaram durante tantos anos… O que era então aquele telefonema? Enquanto desmontava todo o cenário para o suicídio, e seguia em direção ao aparelho, algo dentro dela acendeu. Tão fortemente claro que ela olhou para a noite lá fora, seu espelho, e viu o céu iluminado.

E traziam nos pulsos, as duas, cicatrizes de suicídio. Um passado com o qual cada uma tratara de lidar muito a seu modo. A mais jovem, feito gato persa, desgarrara de tudo suas longas unhas. E vivia a correr mundo, ousando aviar receitas e abrir os corpos dos outros. Sempre a dar e consumir placebos. A outra arrumou um marido, cão de íntimos, e pariu duas crianças que trazia cativas em sua casa de cerca branca e varanda. Entretida em deixar impecáveis as roupas, e não queimar ou azedar o almoço, e estar magra para caber na cama e nos vestidos. Até que se viram, um dia, sem alvoroço. E notaram que traziam em seus pulsos, as duas, cicatrizes de suicídio.

É meu coração que atropela os sinais,
em busca de um verde que não amadureça,
até que a dor atravesse, cheia de certezas,
imensas rodovias que cortam capitais.
É meu coração que parte, vermelho,
sangue on the road, batendo acelerado,
dentro do peito, disparado, na pista da noite.
É meu coração que se desmancha, amarelo,
molengo doce, feito marshmallow,
e se esparrama no asfalto.

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