Pequeno poema inspirado em Ferlinghetti

Comprei uma cama para o meu cachorro,
pois as noites de inverno são rigorosas,
mesmo na América do Sul – essa história
de Sol brilhando o ano inteiro é lorota.
Também chove em Salvador e a ventania
de uma única noite quebrou o toldo
da minha janela. Dormi de meias e,
ainda assim, só peguei no sono quando o dia clareou.
Minha mãe conta que teve muito medo
de que os prédios desabassem, uns sobre os outros,
feito dominó, no Vale das Flores, Tulipa sobre Miósotis.
E eu olhei enternecida para ela e ri, diante da hipótese
de morrermos assim. E imaginei o que me fez querer
morar tão alto, e tão longe do oceano.
Perto das minhas duas irmãs e dos sobrinhos louros,
e do cunhado que me salvou do ataque de um pombo.
E nem é vergonha, ora bolas,
comprar uma cama colorida para o meu cachorro.
E eu escrevo orações
E eu escrevo orações. Sem a esperança tola de que alguém vá lançar mão delas. Eu escrevo orações para mim mesma. Pelo prazer de buscar atalhos até Deus. Ou, talvez, pela influência da primeira oração que aprendi com minha mãe, a belíssima “Salve Rainha”, ainda acesa na memória afetiva com sua espantosa grandeza. A primeira que fiz foi para “Nossa Senhora dos Esquisitos”, a santa que inventei em meu primeiro livro, protetora dos desvairados, freaks e nerds. E aí sempre que vejo um santo, me vem a vontade de escrever uma súplica ou uma louvação. Impossível descrever como me emocionam essas minhas orações. Aqui no blog sinto que ficam quase tão deslocadas quanto eu no mundo. É que elas pedem um oratório, certo suporte material para o espiritual. Minha mãe acende velas e, com elas, estabelece um contato com Deus. E eu escrevo orações. Sem a esperança tola de que sirvam para alguém. Eu escrevo orações para mim mesma.
Mulher de Cabelos Amarelos
de quem o rosto desconheço,
sempre que chego dizem: “Oh, ela
saiu daqui agora mesmo”.
Ah, esta jovem senhora
sabe a aurora, tece com finos dedos
a um encantamento que ninguém consegue
nominar. Há uma mulher chamada espelho.
Lição
Eu sei que poderia amar esse menino insolente
que comenta sobre mim sorrindo,
mas cujos olhos fisgo sempre. Esse menino
ainda tem muito a aprender sobre lirismo
e laticínios, muito a dar, muito a comer…
Eu sei que poderia amar esse menino,
e colocar-lhe uma aliança de ouro no anular
e me deitar com ele, ter um filho,
e fugir noite alta com a sua irmã.
Mas apenas deixo que ele vá, que passe, suma,
dobrando esquinas, recriando ruas,
e leve embora a alma em desalinho
e o tal destino, e as pedras de runa.
Nem paciência para ensinar-lhe, tenho,
que amizade é muito mais do que amor.
E o que ele amarga – toda vez que tenta me tirar a calma -
é esse franzir de cenho que lhe dou.
No tumulto do mundo

Ai, Senhor, quero ser simples. E tão banal
que até os passarinhos reconheçam
e, sem estranhamento, pousem perto.
Quero ser a que Deus quase esquece,
alma quieta sob o Seu comando,
apenas uma ovelha no rebanho que o segue.
Ai, Senhor, quero ser doce. E tão sutil
que nenhum som se mova em minha voz,
e que ela caia no ar com a leveza de uma folha.
Quero ser aquela de quem Deus não espera
e amoroso, a quem Ele lança o olhar mais terno.
Ai, Senhor, quero ser simples e doce. E tão banal e tão sutil
que a violência jamais enxergue o meu rosto no tumulto do mundo.
Canção (Murilo Mendes)
Para o Oriente do amor
meus sentidos aparelham.
Bandeiras azuis, vermelhas,
cruzaram-se no horizonte.
De onde vem tal embriaguez,
que aurora terei tomado?
Vem do fundo de mim mesmo,
vem da minha alma correndo.
Minha amada na varanda
arrulha, me faz sinais.
Vôo com abril nas mãos,
para continuar o ciclo
da antiga revolução:
aboli as dissonâncias,
o sentimento renasce
como no início do mundo.



