Kátia Borges

Posts de Julho, 2007

Pequeno poema inspirado em Ferlinghetti

In Sem-categoria on Julho 30, 2007 at 5:48 pm


Comprei uma cama para o meu cachorro,
pois as noites de inverno são rigorosas,
mesmo na América do Sul – essa história
de Sol brilhando o ano inteiro é lorota.
Também chove em Salvador e a ventania
de uma única noite quebrou o toldo
da minha janela. Dormi de meias e,
ainda assim, só peguei no sono quando o dia clareou.
Minha mãe conta que teve muito medo
de que os prédios desabassem, uns sobre os outros,
feito dominó, no Vale das Flores, Tulipa sobre Miósotis.
E eu olhei enternecida para ela e ri, diante da hipótese
de morrermos assim. E imaginei o que me fez querer
morar tão alto, e tão longe do oceano.
Perto das minhas duas irmãs e dos sobrinhos louros,
e do cunhado que me salvou do ataque de um pombo.
E nem é vergonha, ora bolas,
comprar uma cama colorida para o meu cachorro.

E eu escrevo orações

In Sem-categoria on Julho 29, 2007 at 11:11 pm

E eu escrevo orações. Sem a esperança tola de que alguém vá lançar mão delas. Eu escrevo orações para mim mesma. Pelo prazer de buscar atalhos até Deus. Ou, talvez, pela influência da primeira oração que aprendi com minha mãe, a belíssima “Salve Rainha”, ainda acesa na memória afetiva com sua espantosa grandeza. A primeira que fiz foi para “Nossa Senhora dos Esquisitos”, a santa que inventei em meu primeiro livro, protetora dos desvairados, freaks e nerds. E aí sempre que vejo um santo, me vem a vontade de escrever uma súplica ou uma louvação. Impossível descrever como me emocionam essas minhas orações. Aqui no blog sinto que ficam quase tão deslocadas quanto eu no mundo. É que elas pedem um oratório, certo suporte material para o espiritual. Minha mãe acende velas e, com elas, estabelece um contato com Deus. E eu escrevo orações. Sem a esperança tola de que sirvam para alguém. Eu escrevo orações para mim mesma.

In Sem-categoria on Julho 27, 2007 at 9:33 pm

Santa Rita, mãe amantíssima, tantas orações
louvam teu nome, e eis mais uma, a que dedico,
coração em chamas. Nada digo, apenas busco
abrigo sob teu manto, e lhe suplico
misericórdia para quem amo, mãe
amantíssima, em ti confio. Que o meu pranto
não seja em vão, e que minha fé mova montanhas,
e, em suas mãos, o meu pedido chegue ao Cristo.

Caixa Preta (poema de Nilson Galvão, do blog Blag)

In Sem-categoria on Julho 27, 2007 at 1:11 pm

Mulher de Cabelos Amarelos

In Sem-categoria on Julho 26, 2007 at 2:10 pm

Matisse

Há uma mulher chamada nome
de quem o rosto desconheço,
sempre que chego dizem: “Oh, ela
saiu daqui agora mesmo”.
Ah, esta jovem senhora
sabe a aurora, tece com finos dedos
fios de ouro envelhecido, seus cabelos,
manto amarelo, e o universo inteiro cede
a um encantamento que ninguém consegue
nominar. Há uma mulher chamada espelho.

Lição

In Sem-categoria on Julho 23, 2007 at 3:41 am

Eu sei que poderia amar esse menino insolente
que comenta sobre mim sorrindo,
mas cujos olhos fisgo sempre. Esse menino
ainda tem muito a aprender sobre lirismo
e laticínios, muito a dar, muito a comer…
Eu sei que poderia amar esse menino,
e colocar-lhe uma aliança de ouro no anular
e me deitar com ele, ter um filho,
e fugir noite alta com a sua irmã.
Mas apenas deixo que ele vá, que passe, suma,
dobrando esquinas, recriando ruas,
e leve embora a alma em desalinho
e o tal destino, e as pedras de runa.

Nem paciência para ensinar-lhe, tenho,
que amizade é muito mais do que amor.
E o que ele amarga – toda vez que tenta me tirar a calma -
é esse franzir de cenho que lhe dou.

Cartilha da Cura ( Ana C. Cesar)

In Sem-categoria on Julho 23, 2007 at 3:34 am

“As mulheres e as crianças são as primeiras que desistem de afundar navios.”

Morte no Avião (Carlos Drummond de Andrade)

In Sem-categoria on Julho 18, 2007 at 1:36 pm

“Ó brancura, serenidade sob a violência da morte sem aviso prévio,
cautelosa, não obstante irreprimível aproximação de um perigo atmosférico,
golpe vibrado no ar, lâmina de vento no pescoço, raio,
choque, estrondo, fulguração, rolamos pulverizados,
caio verticalmente e me transformo em notícia”

No tumulto do mundo

In Sem-categoria on Julho 17, 2007 at 1:01 pm
Foto: BBC Brasil
Ai, Senhor, quero ser simples. E tão banal
que até os passarinhos reconheçam
e, sem estranhamento, pousem perto.

Quero ser a que Deus quase esquece,
alma quieta sob o Seu comando,
apenas uma ovelha no rebanho que o segue.

Ai, Senhor, quero ser doce. E tão sutil
que nenhum som se mova em minha voz,
e que ela caia no ar com a leveza de uma folha.

Quero ser aquela de quem Deus não espera

nada de grandioso, o filho mais fraco
e amoroso, a quem Ele lança o olhar mais terno.

Ai, Senhor, quero ser simples e doce. E tão banal e tão sutil
que a violência jamais enxergue o meu rosto no tumulto do mundo.

Canção (Murilo Mendes)

In Sem-categoria on Julho 16, 2007 at 1:48 am

Para o Oriente do amor
meus sentidos aparelham.

Bandeiras azuis, vermelhas,
cruzaram-se no horizonte.
De onde vem tal embriaguez,
que aurora terei tomado?
Vem do fundo de mim mesmo,
vem da minha alma correndo.

Minha amada na varanda
arrulha, me faz sinais.
Vôo com abril nas mãos,
para continuar o ciclo
da antiga revolução:
aboli as dissonâncias,
o sentimento renasce
como no início do mundo.

Reverências ao meu mestre

In Sem-categoria on Julho 16, 2007 at 12:14 am

Alfred Huang é um mestre taoísta que foi preso em 1966, durante a Revolução Cultural, na China. Condenado à morte, ficou na cadeia até 1979, quando foi libertado e emigrou para os EUA. Ao longo dos 13 anos de prisão, Huang dedicou-se a estudar o I Ching. Livre, ele conta que ouviu um chamado interior para que fizesse uma nova tradução do Livro das Mutações, partindo dos ideogramas originais e incluindo as dez asas, comentários de Confúncio. O resultado é “I Ching – Edição Completa”, editado pela Martins Fontes, com 564 páginas. Para quem sempre teve Wihelm como livro de cabeceira, é uma agradável surpresa, embora Huang rebatize alguns hexagramas, o que causa certa estranheza. Um exemplo é Wu Wang, 25, que Alfred traduz como Sem Falsidade. Em Wihelm, 25 é Inocência, o Inesperado. Ninguém pense que a edição de Huang invalida a de Wihelm. Pelo contrário, refere-se a ela com respeito. Uma leitura essencial para quem gosta do I Ching, pois inclui um relato simplificado da história da Dinastia Zhou (oitocentos anos de duração, 34 reis), da qual se originam os hexagramas, esclarecendo o papel que coube ao Rei Wen, ao Duque de Zhou, a Fu Xi e a Confúncio na elaboração da bíblia dos chineses. Só o preço desanima, 74 reais. Mas, como o meu Wihelm foi comprado em 1994 e ainda está comigo, inteiro, creio que vale o investimento. Como boa discípula, tenho as varetas de caule de milefólio (a leitura mais difícil) e as três moedas autenticamente chinesas (doadas por um desconhecido num brechó). Prefiro logicamente as moedas às varetas. É bem mais simples consultar com elas. Em relação ao Madame K, o hexagrama é o 53, Desenvolvimento (Progresso Gradual), segundo Wihelm, ou Desenvolvimento Gradual, de acordo com Huang.

Por enquanto

In Sem-categoria on Julho 11, 2007 at 4:51 pm

Tomei a liberdade de pegar um tempo pra mim. Ando cansada da dissimulação necessária para conviver saudavelmente em sociedade. Preciso centrar energias num projeto pessoal e importante pra mim. Peço licença a Iroco, sob a sombra de quem cresci e creço. E agradeço a quem me seguiu até aqui. Qualquer hora volto, mas sem compromisso. Quando tiver uma coisa boa para contar, um poema saltando do peito ou uma tatuagem feita por Kat Von D.

Kat Von D

In Sem-categoria on Julho 9, 2007 at 11:39 pm

Algumas tatuagens de Kat Von D, do “Miami Ink”. A garota, que vai ganhar um programa só seu em breve, é simplesmente the best e virou popstar. Conseguir tatuar com ela em Los Angeles virou um desafio.
Willy Wonka da “Fantástica Fábrica de Chocolates”.

A eterna, Norma Jean, Marilyn Monroe.

O bebum genial Charles Bukowski.

A mexicana Frida Kahlo.

Mil tsurus

In Sem-categoria on Julho 8, 2007 at 6:09 pm

Penso em flores e mergulho na mais delicada prece,
talvez outros amores possam me mostrar o paraíso terrestre…
Mas nem se dobrasse mil tsurus e fizesse um pedido, ao dobrar cada um,
nem se eu quisesse… Ah, terei sempre comigo este verso anfíbio, céu,
entre terra e mar, capaz de viver e respirar, mesmo no inferno,
este saturno, este grande trígono, a samplear poetas ingleses,
imaginando a maturidade do jovem Werther e ouvindo La Negra cantar,
como alguém que caça no passado lembranças quentes, mas quer dormir
tranqüilo nos braços do amor de sempre, que ergue as Muralhas da China,
e outras seis maravilhas no peito. Estou entregue. Penso em flores
e mergulho na mais delicada prece.

Opostos

In Sem-categoria on Julho 6, 2007 at 4:20 pm

Não ia escrever outro post hoje, mas é que amo cancerianos. E hoje Paula faz aniversário. E ter ela por perto, na minha vida, é um grande presente. Uma história familiar confusa nos afastou. A morte do meu pai fez com ela ficasse muito próxima. Eu amo a minha irmã caçula. Sou coruja, mas ela é incrível. Que posso fazer? É, eu acredito em signos. E os cancerianos, cara, que pessoas! Amanhã, meu grande amigo Adalberto faz aniversário também. Uma figura doida e que eu adoro há uns 20 anos. E tem, ainda, Dona Didi. Aniversante de hoje, soberana em seus cabelos brancos. E Cláudia, e Nanda… a lista é grande. Graças a Deus, sempre me bato com gente do signo de câncer e posso admirar o modo como criam famílias belas, de amigos ou de parentes de sangue. Somos opostos complementares (câncer-capricórnio) e isso explica o deslumbramento com as diferenças.

Na concha

In Sem-categoria on Julho 6, 2007 at 1:07 pm

Saí de casa pra ver Gal Costa cantar no “Loucos por Música”. O público da Concha Acústica do TCA estava cingido. Fãs de Luiz Melodia e de Mart´nália. Preta Gil abriu a coisa. Coisa mesmo foi minha falta de generosidade com Preta Gil, que dividiu vocais com Gal em duas canções. Se mais, não ouvi. Um mecanismo interno qualquer deve ter vedado meus ouvidos. Valeu o exercício de superação escutar Gal e Melodia em “Pérola Negra”, já no finalzinho, subindo a ladeira de volta pro Campo Grande. Um friozinho… Revi Rita Borges e Suzana Varjão depois de séculos. Vi Franciel de longe. Dei um oi pra Celson na fila da cerveja. E, mais, um punhado de conhecidos passaram com acenos e sorrisos. A Concha estava repleta. Um inferno para conseguir qualquer coisa, menos paquera. Mas eu fui acompanhada e nunca soube bem como era isso nem quando solteira. Fiquei só curtindo, observando o movimento das pessoas, admirando a evolução. “Será que isso me inclui?”, pensei, como na música.

Meus programas prediletos

In Sem-categoria on Julho 6, 2007 at 1:04 pm


Vejo muita TV por força do ofício (edito um caderno de TV). É só chegar em casa, vou logo ligando o aparelho e zapeando até cansar. Geralmente, caio no canal 56 e vou ver meu programa predileto. “Miami Ink” é um reality show sobre a vida de tatuadores de South Beach. Não há nada que eu goste mais na TV paga do que o trabalho maravilhoso que a galera da loja faz na pele das pessoas. Há uma menina, Kat, que tem o preto e cinza como especialidade e arrasa em arte religiosa. Ela tem 24 anos e tatua desde os 14. Na temporada anterior, Kat substituiu um dos meninos, Darren, que fraturou o braço. Na atual, ela é parte do elenco fixo. Não tenho tatuagens. Mas o desenho é algo que sempre me fascinou. Eu desenho bem desde criança e me encanta o desafio que cada tatuagem representa. O primeiro post deste blog se chama “queria tatuar Janis Joplin em minha pele”. Na TV aberta, o que mais gosto é “Minha Nada Mole Vida”, criação de Fernanda Young e Alexandre Machado. Todo mundo detona Fernanda Young. A crítica não é crítica. Segue o rebanho. Quando Young lança um livro de poesias, o mundo cai. Para muita gente, a carreira dela começa em “Os Normais”. Não sei como “Minha Nada Mole Vida” ainda está no ar. A única pessoa que conheço que é tão fã da série quanto eu é o meu amor. Comprou as duas primeiras temporadas em DVD. Coisas assim fortalecem qualquer relação.

Amigos imaginários

In Sem-categoria on Julho 4, 2007 at 1:31 pm

O dia amanhece bacana quando o sono dura oito horas. Comprimidos de Passiflora. Sempre. Tenho dormido com meu amor feito irmãos. Duas depressões, um Grand Canyon. Mas canso fácil da desesperança e me armo com as armas de Jorge. Vejo até o Superpop de Luciana Gimenez. Quero algo que não sobrecarregue meu coração. Desenhos. Comédias. Música pop. Também sou péssima para seguir conselhos. Élcio Domingues manda ânimo e carinho de Campinas. Nenhum sinal de livro solo à vista, mas estou comprometida com três coletâneas. Há, ainda, um projeto de teatro. E o texto, eternamente incompleto, sobre Ana Cristina Cesar. Amigos mandam notícias de inimigos. Escuto indignada. Fazer poesia é entrar imediatamente numa guerrilha, fazer trincheira com sacos de açúcar. Uma das pessoas que mais admiro nessa terra me disse que me considera uma pessoa lúcida. E isso no meio de uma festa. O dia amanhece bacana quando o sono dura oito horas. E, mesmo no Inverno, temos Sol, feito um Verão meio nebuloso. O céu está azul, “com possibilidade de pancadas de chuva”, como anuncia Rosana Jatobá no Jornal Nacional. Pode ser que chova, pode ser que não. Mas se chover, abro meu grande guarda-chuvas azul com desenhos de A Mansão Foster para Amigos Imaginários.

Pra começar a semana

In Sem-categoria on Julho 2, 2007 at 1:07 pm

Quero que o pop me abrigue
com toda a sua luminosidade,
nem papo cabeça e nem rock,
só o doce balanço da balada
e o rosto de Fergie. Pop,
na veia, sempre, e um caminho
apenas bacana, palavras assim
facéis de dizer e compreender:
legal, demais, valeu… E o mar,
um mar de possibilidades, feito
um mundo de som com três acordes.