Madame K

O cachorro mais feio do mundo

Publicado em Sem-categoria por Kátia Borges em Junho 28, 2007

O animal sem nome

Publicado em Sem-categoria por Kátia Borges em Junho 28, 2007

Tenho lido e lido e lido “As Elegias de Duíno” e os “Sonetos de Orpheu”. A ponto de sentir falta deles na rua. Mais uma vez, a leitura me resgata da dor. Feliz, ou infelizmente, é nela que tenho me encontrado ainda a mesma menina que sonha com coisas. Me abrigado seria melhor, já que olho o céu azul e só vejo bombas caindo. Fora dela, da leitura, os dias cinzas de sempre, a confusão dos vôos, a violência estampada nos jornais, covarde, banal, inaceitável. E as vozes das pessoas. Dentro dela, a amplidão, o espaço aberto de quem indaga aos anjos, sem a pretensão de ser ouvido. Pior na guerra, dizem os cínicos. E eu rio. Tenho rido cada vez mais sem saber sequer de que sentido. Só para encerrar a conversa depressa e esconder a bunda nua, os seios nus, como nos sonhos em que se está em lugares públicos sem roupas. “As Elegias de Duíno” me conquistaram justo quando sinto me faltarem as forças. Grandiosas, elas acenam com asas sobre o abismo: Aqui há coisas ainda a serem conquistadas. O mesmo sonho, terrível como um anjo, e divino. E, nos “Sonetos”, o mesmo animal sem nome, que, amado, ganha uma forma visível.

Aqui estou, cantando…

Publicado em Sem-categoria por Kátia Borges em Junho 26, 2007

Partiu um navio ainda há pouco
deste porto. Que é meu coração,
demasiado lusitano?
Quem dera o mar,
o amar, sem horizontes,
o atravessar eternamente,
para outro onde,
até perder-se na calmaria do nada há.
Partir, quem sabe, seja encontrar-se.

Quem, se eu gritasse, ouvir-me-ia na hierarquia dos anjos?

Publicado em Sem-categoria por Kátia Borges em Junho 25, 2007

Pois o belo nada mais é do que o começo do terrível que ainda suportamos; e o admiramos porque, sereno, desdenha destruir-nos. Todo anjo é terrível.
(Rainer Maria Rilke, a primeira das Elegias de Duíno)

São João

Publicado em Sem-categoria por Kátia Borges em Junho 22, 2007

Minha avó materna era uma santa de olhos azuis,
numa fazenda chamada Santa Luzia, que posseiros
invadiram e virou uma vila, no meio do Sertão.
Tenho dois avôs que morreram cegos. Daí meu medo do escuro
e meus cuidados com meus olhos. Do avô paterno
herdei o gosto pela cozinha e o jeito discreto. Ele
nem imagina que virou nome de uma vila de casas
na Cidade Baixa. Da avó paterna, meio índia, tantas coisas,
a paixão por ouvir e contar histórias, a mania de cantar
o dia inteiro. Do avô materno, o instinto festeiro,
minha mãe sempre lembra as festas de São João
na fazenda, com porcos e bois mortos, inteiros,
e a vizinhança enchendo o terreiro ao som da sanfona.
E de Donana, não sei o que tenho. Minha mãe só diz
que ela era calma e silenciosa, resignada com a vida,
e a imagino, ainda, como a incorporação da minha Nossa Senhora.

Um poema quase conto

Publicado em Sem-categoria por Kátia Borges em Junho 21, 2007

Você é meu grande engano, pensei enquanto sorria, assegurando a ela que a febre é mais reação que abandono, e nos amamos tanto e, no fim das contas, pouco importa: Toda doença é só sintoma. Brigamos, enquanto imaginava dizer: Ah, meu amor, meu amorzinho, como posso querer perfeição maior? Mas saí batendo a porta e fui pro frio de uma rua repleta de vidraças. É São João, há fogos no céu, e o erro é meu, que só penso no poema de Bandeira. E nos meus, que silenciosamente, dormem nos porões da memória. Não há um I Ching disponível agora, só me resta relembrar, hexagrama por hexagrama, uma vida inteira. Volta enquanto pode, enquanto há chama, recompondo a beleza das fogueiras de Beltane.Volta, inda que sombria, pois só há bruxas ensolaradas nos romances. E, cada amor, cada amor, meu amorzinho, se rende a um milhão de expectativas. Você é meu grande engano, meu grande engano, pensei enquanto sorria, e aquela certeza ardia e ia aquecendo tudo em volta.

Um uísque e um cachorro

Publicado em Sem-categoria por Kátia Borges em Junho 21, 2007

Foi Vinicius quem disse: o uísque é o cachorro engarrafado. Sim, o melhor amigo do homem. Eu ainda prefiro meu poodle mestiço, quentinho e bobo, a espreitar meus movimentos, a qualquer 12 anos com gelo. Meu cachorro custou 120 reais num pet shop. Eu o comprei pouco depois da morte do meu pai, em 2002, quando me senti meio cão sem dono. Minha sobrinha, uma Oprah Winfrey de 10 anos, me convenceu a levar Billy pra casa. Billy Negão, como na música do Barão Vermelho. Era pequeno, microtoy, me disse a moça da loja, e legítimo. “Pode passar pra pegar o pedigree dentro de duas semanas”. Nas primeiras vacinas, descobri que meu fofucho é um pé duro, já que seus pais são de raças diferentes. Só entendi o que isso significava quando vi o tamanho que ele ficou. Enorme! O veterinário, indignado, me estimulou a processar a loja. “Só tem um problema”, ele disse, “Você terá que deixar seu dog lá e aceitar a restituição da grana ou um animal de raça pura”. Normalmente, devo confessar, não levo desaforo pra casa. Mas trocar meu uísque peludo e adoravelmente chato por qualquer coisa era, e continua sendo, uma missão impossível. O papo furado vai bem, enquanto a poesia deve andar lá pelas bandas de Cruz das Almas, arriscando a pele na guerra de espadas ao lado do licor, seu amigo caipira engarrafado.

Janis, Crumb, Cajú e os Hell´s Angels

Publicado em Sem-categoria por Kátia Borges em Junho 20, 2007

Sabe aqueles amigos que você cultivou ao longo de duas décadas e nem lembra como conheceu? Como se estivessem juntos desde sempre, você olha pra cara dele de repente e se pergunta: Como será que nasceu esse amor? Pois, com Janis foi assim. Sei lá como ouvi, quando ouvi, pela primeira vez, mas esse vinil aí, com capa de Robert Crumb e selo dos Hell´s Angels, é o disco pra mim, aquele que eu pegaria pra ouvir no espaço se o planeta fosse pelos ares e eu só pudesse levar um. Sei que minha paixão por Janis beira o ridículo (Fernando Pessoa oferece licença poética para as cartas, mas e todo o resto?). Ela permanece, seja como for, enquanto as coisas mudam, feito pedra de toque dentro do caos. E Janis, quem a conhece sabe, era o caos. Capricorniana feito eu, dançava alegremente na beira do abismo. Vinte e sete anos de desequilíbrio e uísque puro, sempre girando junto com os movimentos do planeta na lendária esquina da High e Ashbury, encruzilhada mágica dos hippies de São Francisco. Ah, e era só uma caipira de Austin, no Texas, cheia de espinhas na cara e cabelos lavados com shampoo de laranja (um bagaço). A música que está tocando no blog, “Trust Me”, é de outro disco dela, o último da vida, “Pearl”. Quando fazia inglês no UEC, levei pra sala de aula e foi um barato, todo mundo deslumbrado, aprendendo a letra, ouvindo (alguns pela primeira vez) Janis cantar. A letra fala de uma mulher que desafia um cara a apostar nela, confiar nela, e esperar que o amor deles amadureça feito vinho. Confiar, cara, é o preço que se deve pagar, diz a canção, para encontrar o amor. É uma das músicas que mais amo de Janis, a segundona é “One Night Stand”. Sempre que escuto “Solidão, que Nada”, de Cazuza, penso que ele tomou essa última canção como inspiração. Uma vez, no camarim, conversei sobre Janis com Cazuza. Ele só de cueca preta, bebendo uísque. Lembro que bebi junto com ele, um ou dois goles, e que esqueci de levar papel e caneta pra pegar um autógrafo. Apanhei na hora, ali mesmo, um pedaço de papel no chão e alguém arrumou uma esferográfica. Guardei durante anos o pedaço de papel amassado com a assinatura dele, até que o perdi numa das mudanças de casa. Imagino que ele dever ter perdido também o poema que lhe entreguei naquela noite. Eu era meninona, gente. E fã. Ainda lembro do primeiro disco do “Barão” que ouvi, emprestado por Norma Sueli. Era o terceiro deles, o “Maior Abandonado”. Cara, que disco! Lembro que veio cheio de declarações de amor para a dona. Aquelas capas dos vinis, sim, espaço privilegiado para arroubos românticos.

Salgueiro

Publicado em Sem-categoria por Kátia Borges em Junho 19, 2007

Li “Salgueiro” (Civilização Brasileira, 1935/2007), de Lúcio Cardoso, de um só fôlego, sem sequer olhar o relógio. Não sei a que horas adormeci, mas as vivas sensações provocadas pela leitura me fizeram acordar disposta a escrever. O Salgueiro a que se refere o autor em seu segundo livro – O primeiro foi “Maleita”, de 1934 – é o morro carioca. Estamos em 1935 e as sementes da violência estão lançadas, dormem sob o barro que soterra famílias inteiras. Não há traficantes. Malandros descansam seus cotovelos nas mesas das pequenas mercearias que vendem de tudo, incluindo cachaça barata, que pode ser paga com qualquer vintém. E casebres de um único cômodo abrigam quatro, cinco pessoas. Neles, casais regulam seu desejo pelo sono, inda que fingido, dos outros. Viver em pecado é simplesmente um incômodo.
Uns poucos sustentam os muitos que vagam pelas vielas escorregadias. As mulheres passam de cama em cama, equilibrando suas vidas nos ombros dos homens. E é tênue a linha entre a honestidade e o abandono. Em um dos barracos, José Gabriel tenta manter-se arrimo de família e ser feliz com Rosa, a negra que seus pais, sua irmã e seu filho odeiam. Jovem e briguenta, a mulher perturba a morte lenta e agonizante do velho, vítima de tuberculose e sem dinheiro para remédios. Não há luz. Só o acender e apagar das velas e das lamparinas de querosene. Marta, a recatada irmã, decide vender o corpo, seu único bem, enquanto a mãe, Genoveva, resignada, apenas observa a vida que se desintegra.
Ao filho de José Gabriel, Geraldo, cabe a condução do drama. Chamado de “idiota” desde criança, a tia diz dele apenas “vai roubar”, o adolescente desabrocha em dor, desapontamento e violência, até perceber como o morro o aprisiona. Por dentro. Operário honesto, José Gabriel rouba para submeter a rebelde Rosa e, ainda assim, a perde. Passa a ser procurado pela polícia, denunciado pela ex-amante, e perde qualquer contato com a família. O olhar sobre essas vidas, unidas/desunidas pela miséria, é de compaixão pelo humano e o modo como Cardoso compõe as cenas rouba do cinema os cortes rápidos que impõem ritmo às seqüências: “Mas rompeu de fora, subitamente, o tropel de uma corrida. E Rosa, abrindo violentamente a porta, apareceu rindo, sufocada, as mãos sobre o peito, com o corpo inclinado para a frente, desamparada. Era um riso vivo, histérico, de animal forte na consciência da sua força”.
Do mesmo modo, o autor (morto em 1968, após um segundo derrame), presenteia o leitor com uma bela panorâmica em uma das passagens mais tocantes de “Salgueiro”: Quando o velho Seu Manuel é retirado de casa para ser levado ao hospital, onde morrerá abandonado e desgostoso. O morro se mobiliza para ajudá-lo a descer, providenciam uma cadeira, e meias azuis para os pés, e desce o homem, acuado e envergonhado, sob os olhares de todos, em direção ao nada das paredes brancas da Santa Casa. E alguém grita: “Olha só, ele não calça sapatos”.
Dividido em três partes – O avô, o pai e o filho –, o livro mostra as dores de três gerações submetidas a uma realidade selvagem, e que eles não conseguem alcançar e dominar completamente. Como escreve Milton Hatoum na orelha, “o morro configura as personagens”, e de tal modo que elas consideram um luxo morrer na Santa Casa. Autor do clássico “Crônica de Uma Casa Assassinada”, Lúcio é um escritor que se deve ler pelas beiradas, representadas por “Maleita”, “Salgueiro”, “Mãos Vazias” ou “A Luz no Subsolo”.

Fernando Pessoa para começar bem a semana

Publicado em Sem-categoria por Kátia Borges em Junho 18, 2007

Ai que prazer
não cumprir um dever.
Ter um livro para ler
e não o fazer!
Ler é maçada,
estudar é nada.
O sol doira sem literatura.
O rio corre bem ou mal,
sem edição original.