Madame K

Publicado em Sem-categoria por Kátia Borges em Maio 29, 2007
Como era sentir saudade quando não existia orkut?
Quando não se podia “folhear” um fotolog?
Quando não era possível salvar uma foto para colocar no blog?
Como era mesmo sentir saudade?
Ao longo do ano, Mariana vai me ensinando
mais sobre determinação e coragem que sobre saudade.
Sobre saudade, eu vou aprendendo sozinha,
pobre fada madrinha sem varinha mágica.

Alegria

Publicado em Sem-categoria por Kátia Borges em Maio 29, 2007

Já não me incomoda
se alguém coloca o olho e espia,
pelo estreito buraco da vigia,
os meus sonhos.Sou poesia
e, se pouca, me conformo:
melhor ser um haicai que a “Ilíada”.

Deprê

Publicado em Sem-categoria por Kátia Borges em Maio 28, 2007

A raposa nunca deve olhar pra trás
enquanto atravessa a grande água,
embora possa. Uma pessoa que caminha
deve sempre manter os olhos na linha
do horizonte, que é pra ter onde se guiar.
Seguir nem sempre é ir pra onde
se possa encontrar alguma coisa. Seguir
pode ser simplesmente achar
no movimento, já, aquilo que se busca.

A doença do século XXI

Publicado em Sem-categoria por Kátia Borges em Maio 25, 2007


Graças a uma indicação de Marcus Gusmão, fui até o site da Associação Brasileira do Déficit de Atenção – ABDA e fiz um teste para saber se tinha Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH). O teste não é definitivo, diz o texto do site. Ainda bem. Recomendo a todos uma visitinha, embora considere a medicina como a grande doença do século XXI.

Insônia

Publicado em Sem-categoria por Kátia Borges em Maio 24, 2007

A gripe me pegou de jeito esta semana, embora eu tenha conseguido honrar todos os compromissos, incluindo uma ida ao novo shopping. Acabei faltando ao curso da Facom na segunda-feira por causa da febre e dores no corpo. Fui trabalhar todos os dias “na tora”. De manhã, até que dá pra acordar cedo com alguma disposição, mas, à medida que o dia avança, o corpo vai pedindo arrego. Como minha aula vai até às 22h30, podem imaginar como fico depois do intervalo, por volta das 20 horas. Aí acabo mesmo saindo mais cedo. Tenho até dormido cedo. Como convivo com a insônia desde criança, tenho sempre em casa um remédio natureba para pegar no sono no tranco. Às vezes funciona, outras não. Será que a insônia da vida toda tem a ver com a desorientação espacial? E o que dizer de perder toda e qualquer coisa, de ingressos para a “Formidável Família Musical” a um diploma de jornalismo, cuja segunda via custou R$ 80? E de ficar dirigindo com a carteira provisória de motorista durante quatro anos?

Perdida no shopping

Publicado em Sem-categoria por Kátia Borges em Maio 23, 2007

Ontem encarei um grande desafio: fui sozinha ao novo shopping. Precisava pagar umas contas, enfim, arrumei uma boa desculpa e fui. Eu, que me perco a cada ida ao Iguatemi e nunca sei onde fica cada loja, peguei o engarrafamento da via de acesso, estacionei bonitinho no G1, subi duas escadas rolantes e dei de cara com uma enormidade de lojas amplas e bem iluminadas e uma multidão ávida, incluindo gente de andador e de cadeira de rodas e mães com crianças de colo. O povo brigava por bolas, distribuídas na Riachuelo. Tentei chegar à Praça de Alimentação, mas desisti. Acabei me refugiando na Livraria Saraiva e comi por lá mesmo. Difícil, confesso, foi sair de lá, e eu tinha um compromisso imperdível às 18 horas: aula na Facom. Quando consegui alcançar o estacionamento, respirei aliviada. Mas o trânsito estava simplesmente caótico. Não deu, assim, para conhecer tudo, com a calma que o ambiente pede. Terei que voltar um dia desses, com menos gente nos corredores. Quero ir à Saraiva com mais paciência, olhar os livros, bisbilhotar um negócio chamado Espaço Castro Alves, que tem lá dentro, tomar um café gelado (tudo preparado por baristas, garante o cardápio).

Poesia em imagem

Publicado em Sem-categoria por Kátia Borges em Maio 22, 2007

O belo, e trágico, registro de Aristides Baptista, publicado na primeira página de A TARDE na segunda-feira, dia 21 de maio de 2007, que mostra o marido e a mãe de uma mulher assassinada no domingo, dia 20, chorando ao lado do corpo.

Poesia em imagens

Publicado em Sem-categoria por Kátia Borges em Maio 22, 2007

O vídeo acima foi feito com imagens clicadas por Fernando Vivas. Na minha opinião, ele é, ao lado de Aristides Baptista, um dos mais talentosos e sensíveis artistas da imagem em atividade hoje na Bahia. Confira mais fotos de Vivas no blog Olho da Rua

O jardim

Publicado em Sem-categoria por Kátia Borges em Maio 21, 2007

Sempre sonho com árvores,
num chão repleto de folhas secas,
um outono interno, eterno,
anuncia insuspeitas primaveras,
e sempre sonho com anjos
de asas, de pedra, presos a uma
imobilidade assustadora, especialmente,
para quem vive na velocidade
das coisas, com a quietude à espreita.

Duas ou três coisas sobre a blogsfera

Publicado em Sem-categoria por Kátia Borges em Maio 18, 2007

Hoje encontrei o “licurito” Marcus Gusmão por acaso. Pessoalmente, diga-se, já que virtualmente estamos sempre juntos. E conversamos sobre as boas amizades que nascem na virtualidade, na blogsfera, e que só existem dentro dela, já que raramente temos oportunidade de desenvolvê-las fora deste espaço que é um não-espaço. Tive uma grata surpresa também esta semana, quando uma amiga me enviou uma lista com seis blogs de pessoas que não conheço e que, no entanto, divulgam poemas meus, com o dévido crédito. Fui checar cada um deles e deixei recadinhos, agradecendo pela generosidade. O poema mais postado é “Amor” (por todo o caminho, te levo comigo…). Pois, hoje recebi um e-mail de Élcio Domingues, de Campinas/SP, que postou um de meus poemas no blog que mantém e me enviou um conto inédito de sua autoria, “Sob a Mesa da Sala”, que publico abaixo, não como forma de retribuição, mas porque é bom e vale a pena ler.

Sob a Mesa da Sala
Sempre que se sentia só e pequenino frente aos flagelos e às asperezas de um mundo árido; apenas ele e as ameaças, seus medos, suas angústias e suas culpas, via-se sob a mesa da sala da casa de seus avós, seu refúgio secreto em momentos difíceis, útero quente de sua mãe. Velava-o apenas, imponente e bela, a enorme cristaleira que, silenciosa, fazia-o acreditar que o silêncio era o senhor de todas as tardes.
Sobre sua cabeça, o tampo distante, lá em cima e, sobre ele, a corsa mocha de cerâmica azul que descansava serena sobre toalhinhas de crochê cor de chá, e o leão pirografado em caixa de paus, plena de segredos, de mapas ocultos, surrados e carcomidos pelos séculos e em sua imaginação, sempre cobiçados por avarentos e piratas.
Logo abaixo, nas laterais, as gavetas de toalhas de domingos e de outros panos solenes e, finalmente, no limbo de sua frágil fortaleza ele, entorpecido pela vertigem e pelo medo da multiplicação ao infinito, na cristaleira impassível, do reflexo de sua face adornada de outras transparências de copos, xícaras, compoteiras, jarras e cálices detidos pelo cubo mágico de espelhos e suas paredes translúcidas.
A mesa de tampo ovalado, daqueles de abrir para agregar quem mais chegasse, era núcleo de uma flor que se expandia para dar espaço às quantas pétalas quisessem orná-lo. Quando coberta pela toalha enorme, a mesa transformava-se em tenda de sultão com eunucos que abanavam e odaliscas de olhos encantadores e dorsos serpenteantes. Ali ele estava a salvo de tudo; a caixa de madeira, aberta só de dois lados, era suficiente para preservá-lo de qualquer mal ou perigo.
Antiga, a casa transpirava dignidade simples pelas paredes e pelos móveis quase negros de madeira maciça, porque eram também, agora ele sabe, extensões de seus avós.
Pés-direitos altos, como não se constroem mais, humilde e sempre limpa, para as vistas e para os pés, a casa exalava muitos cheiros que hoje, só de senti-los, arremessam-no àquele passado, como a vertigem causada pelo labirinto de imagens reiteradas nos espelhos justapostos da velha cristaleira.
No banheiro, as louças, o chão e os azulejos eram bem esfregados e lavados todos os dias; sentia-se a volatilidade do desinfetante leitoso comprado em garrafões de plástico transparente. Das madeiras consistentes dos móveis, emanava a suavidade do óleo de peroba que as fazia reluzir e que tinha no rótulo do pequeno frasco de vidro âmbar que continha o produto, o desenho de um índio norte-americano de nariz aquilino e olhar obstinado que ele aprendeu nos filmes de “far west”, a temer, odiar e matar às dezenas e com a consciência bem limpa dos que prestam relevantes serviços às causas dos bons – aqueles bárbaros eram diferentes dele e tudo o que era estranho era perigoso, em seus devaneios infantilmente maniqueístas sobre batalhas e perseguições a cavalo. Ali, sob a mesa, sua pontaria, seus dois revólveres de prata com coronhas de madrepérola e sua carabina de cem tiros eram tão eficazes quanto os seus punhos de aço.
Nos tacos, o benzeno da cera de carnaúba que, espalhada por um pesado esfregão, tingia o chão de um corante quase vermelho. Em todos os cômodos levitava em harmonia com os demais aromas, o olor do sândalo e do almíscar do pequeno incensório do oratório de sua avó – até hoje ele não entende como que, naquele mínimo espaço, cabiam tantos santos, tanta fé e tanto poder.
No quintal, quinino para as machucaduras que ele colecionava, como que para eternizar em pequenas cicatrizes as suas “artes” – como seu avô chamava as suas peripécias. Louro para o porco aos sábados, açafrão para a galinha aos domingos e hortelã para o chazinho que à noite o faria dormir o sono bom, para que no dia seguinte ele enchesse de novo de preocupações e de alegrias a casa inteira, o quintal amplo e fecundo de plantas e aventuras e aqueles corações meio cansados, é verdade, mas que bem lá no fundo eram mais infantis que o daquela criança. Felicidade era o perfume mágico da juventude eterna que para eles o menino exalava.
“Criança quieta é criança doente!” – diziam os avós, categóricos à sua mãe que, às vezes aflita, mas sorridente, constatava surpresa tamanha cumplicidade entre aqueles extremos etários. E das bocas de seus velhos e saudosos, um sorriso e um hálito gostoso que lhe dizem até hoje e sem palavras, nos momentos em que ele sofre sem um ombro que o apóie, qualquer mão que o afague, uma boca que lhe sorria, um ouvido que apenas o ouça, ou um ventre que o acolha: “Te amaremos para sempre! Hoje, somos a mesa de tua sala.”