Fevereiro 2007


Não quero o homem que me quer. E há um sol
que eu quero em meu rosto.
Crescer é fogo, amor, consome.
Perdoe o medo, o nojo, a fome.
Amar é doce, enjoa.
Não quero o pássaro que tenho nas mãos.
Eu preciso é dessa ave que voa.

Não curto essa coisa de pôr fotos pessoais no blog. Mas essa aí, feita por Cassiano, namorado de minha sobrinha, Mariana, em 13 de janeiro deste ano, é o primeiro registro do encontro entre Binha, Paula e Kátia, as três filhas de Lindival de Souza Borges, um cara que deixou o planeta em 1º de dezembro de 2002 e que eu aprendo a amar, mais e mais, a cada dia de ausência. Um cara que partiu e me deixou uma irmã. Existe melhor, e mais valioso, legado? Meu pai foi um cara honrado e alegre, e fico feliz ao enxergar um pedaço do riso, do olhar, da personalidade dele em cada uma de nós.

Amar, esse segredo, vive
enquanto alimentamos sem medo
uns pássaros cegos que insistem
em comer em nossas mãos.

Olha a vida que passa, vizinha de planeta,
naquela casinha à direita do país em que você mora.
E, bem na esquina do Estado em que vivo,
há uma moça com um filho no colo. Ele chora.
Perto da cidade na qual resistimos,
um outro Katrina avizinha-se, demora.
Enquanto março não vinga, este peso
em meu peito é o que nos irmana. E devora.

“Infeliz de quem tá triste no meio dessa confusão”. E de quem ateia fogo na aldeia. E de quem fica com os cotovelos em chamas. E de quem joga tudo pro alto, incluindo a paranóica necesidade de escrever sempre “para o”. Havia decidido só voltar a essa madame de araque após a folia, quando a vida entra nos trilhos e temos que ficar de olho nos trens, e não nos trios. Mas eis que volto à blogosfera e dou uma espiada em Licuri, Blag, Sarapatel e Filosofia. E dá vontade de escrever também. Pura inveja, pois. Uma amiga gostou do blog, mas comentou que as fotos não trazem créditos. Decidi não publicar mais fotos que não possam ser creditadas.

Meu coração sente que, em março, algo vai mudar,
quando desarmarem os palanques. É isso!
Quando desmontarem as arquibancadas do Campo Grande,
meu coração me diz que algo vai mudar. Algo, sim,
de muito forte, profundo e importante.
Quando desligarem as lâmpadas coloridas
e retirarem os enfeites dos postes, há quem diga (meu coração)
que a verdadeira alegria nascerá – silenciosa e contemplativa –
a ocupar os espaços dos camarotes na avenida
e a comandar, com seu ritmo, uma certa batucada de amigos,
ou um afoxé antigo, ou um frevo vindo de Olinda.
Meu coração, esse bandido, é que sempre chega atrasado pra folia.

Com zelo e alguma tristeza, guardo coisas:
cartas antigas, fotos antigas, calendários.
Se me perguntarem a razão, direi que sei,
direi que um dia saberei…
Há quase um ano aguardo notícias importantes,
dentro desta caixa de abelhas.
Todas as noites, o carcereiro chega,
põe sua cabeça na pequena grade e ri.
Amanhã mesmo deixo esta coisas, esta caixa.
É algo que assumo cuidadosa,
como se soubesse que não vou voltar,
como se conhecesse o rosto que se oculta,
ou como se mentisse, quando sinto que sei.
Ontem mesmo o carcereiro esqueceu-se de vir.
Minhas lembranças zuniram tontas,
entre as paredes desta caixa,
doloridas de saudade.

A mãe buscou os espelhos,
quando a vida já não se refletia,
e feriu com aço os filhos pequenos.
Era feriado nacional, aquele dia,
quando o papa veio, e a freira vivia,
com doentes e famintos
em seu encalço. Era
pequena, do mesmo tamanho,
espremida no meio do povo,
cantando a música aprendida na TV,
e querendo bênçãos de João de Deus.
Ele, ali, sua santidade, a poucos metros,
e tudo em mim era distância e futuro.
A vida, um beco sem saída,
continuou a seguir, com animais e plantas,
domesticamente falando.
Eu sabia por eles o que acontecia no mundo.

De repente, minha vida parou nos anos 80 e isto que sou é pouco demais. Comprei uma planta no supermarket. E uma banqueta de madeira. Coloquei os dois, um sobre o outro, na sala do meu apartament. A vista é tão bela e urbana. Prédios, luzes, um traço azul, vestígio de mar. Tenho um cão, um bando de pequenos potes de plantas espalhados na varanda, quase um jardim suspenso. Quando fico triste, ouço Janis Joplin, fumo um cigarro, tomo um uísque. Ainda sonho em ter um filho com nome de santo, Santiago. E ir até Compostela. Faço ouvidos moucos por enquanto ao caminho que me chama desde muito. O tempo está do meu lado, como cantam os Stones. Que o diga meu Iroco, loko, preso na gaveta. Poemas com prefácio de Miguel Sanches Neto. E o projeto de levar A Deusa da Zona Sul aos palcos. Tanto, tantos, tão poucos. Cara, daqui a 20 anos, estarei com quase 60. Espero apenas ter a cama quente.

Estou escutando PP. Arnold cantando First Cut is the Deepest, de Cat Stevens, hoje Yusulf Islam – ele deixou a carreira no auge e se converteu ao islamismo com esse nome. Eu conhecia três versões da canção. A versão original, de Cat Stevens, e duas outras (de Rod Stewart e de Sheryl Crown, essa mais recente). A de PP é novidade pra mim. Foi a estréia dela em 1967, como cantora, eu nem era nascida. Tem também uma gravação de Linda Ronstadt, mas dessa eu não gostei. O ritmo é acelerado, desfigura a música e tem um corinho de back que vou te contar… O Cat Stevens estava numa praia e quase se afogou no mar. Foi quando jurou mudar de vida que uma onda o lançou na areia. Virou Yusulf. Já PP. Arnold é um mistério pra mim. A releitura dela da canção é belíssima. As imagens só com YouTube na veia para crer. E eu que nasci quando só existia vitrola com agulha ponta de diamante, um luxo, e vinil com capa dupla, na qual a gente escrevia declarações ensandecidade de amor.