Mário Quintana me proteja
de uma vida entediante,
sem amantes, sem cerveja,
com compromissos inadiáveis.
Me proteja, doce anjo,
de viver sem ter encanto,
sem que a poesia me assalte
de repente, à meia-noite.
Que pressinto teu semblante
em cada verso que surge,
de soslaio em meu peito,
pedindo abrigo no mundo.
Álbum
Meu amor era uma criança linda.
Dessas que parecem anjos antes de perecer.
Se a adivinho calma em fotos antigas
penso logo nas fantasias que os pequenos usam
no terno dos astros. Tão compenetrados e em fila,
ensaiados para o canto, quase voam de agonia (o fogo da infância!).
Ah, meu amor era também essa criança
que crescia para me buscar de todo jeito,
enquanto eu apenas pressentia.
Meu amigo, adivinho quando você passa
e um silêncio esquisito senta conosco na mesa do bar.
É quando um vento frio sopra sobre nossos ombros
e alguém recita, de repente, um verso de improviso.
Mas tudo é sombra. Eu não estava contigo na hora do tiro,
nem quando o assombro de saltar da vida
arregalou seus olhos. Eu não estava contigo.
Apenas guardei uma foto sorridente, e a certeza
de que há vida inteligente do outro lado da vida.

Leio blogs de amigos e me admiro: como escrevem.
Longos contos, capítulos de romances, grandes cartas para amigos desconhecidos.
Leio blogs de amigos e me admiro: como escrevem.
Sem desanimar da pena um segundo.
Sem perceber, talvez, que, mesmo à mercê da tecnologia, estamos todos condenados
a tomar da pena algum dia.

Quando penso em você, meu amigo,
eu só me lembro dos discos de vinil,
das agulhas de diamante nas vitrolas,
três em um, dos meninos comprando glu
para aplicar na veia. Das fitas K7,
com rock n roll entre vinhetas de rádio,
dos primeiros conhecidos mortos de aids,
dos lendários drogados de ácido,
dos shows do Camisa, das idas,
de carona, para Arembepe.
Dos poetas da praça, na Piedade,
vendendo folhetos, das meninas
com cabelo moicano e olhar de anjo.
De um casal de mulheres que promovia
uma oficina de fotografia na Biblioteca Pública.
De Carlos Anysio caminhando no setor de cordel.
De Antonio Short e seu namorado jovem. Do veneno nas veias.

Em que matéria suave repousa
o que perdemos, quando deixamos de ser jovens?
Para onde segue aquela energia intensa
que parecia inesgotável?
Penso em Truman Capote
nas fotos do Washington Post publicadas em 74.
Como lembra Santiago Nazarian, o belo e jovem Santiago.
Aquele Truman Capote jovem virou apenas referência na capa
de The Boy with The thorn in his side,numa pose cheia de vitalidade para Cecil Beaton.
Não há mais vinis dos Smiths, só CDs
remixados, e Morrisssey já não é ovacionado com rosas.E nem esconde os fios de cabelos brancos nas têmporas
