Kátia Borges

Versos encantados desde la Habana

In poesia on Julho 8, 2009 at 6:37 pm

florbela_espanca

eu cometo versos
como quem lê Florbela Espanca numa quinta de Lisboa
repousado entre o branco marfim da cidade e o vermelho do sol
na mesa de uma taberna ao lado de uma garrafa de vinho tinto
descubro e me enamoro da musa e da brisa e do sal do mar
ao longe a praia aguarda pelos marinheiros que nunca se foram
 
eu cometo versos
como uma ilha chilena atenta à espera de um náufrago
como colheres de prata ao sol matinal de Madrid
a desconfiança da liberdade ante um campo florido
como quem vê com alma e por isso não precisa mais dos olhos
 
Eu cometo versos
Como quem nasce de repente como quem avista a Andaluzia
Como quem brinca com a luz sobre a pele das coisas
Como o vento cochichando com o porto e com as velas brancas
Como quem busca sereias e tesouros em mares perdidos
 
Eu cometo versos
Como amantes ensandecidos pela beleza ardem numa tarde de Andorra
Como os suicidas que partirão ao amanhecer na carruagem do indizível
Sem cartas nem bilhetes suicidas
 
Eu cometo versos
Como quem comete um crime e aguarda pelo castigo dos deuses.

 

Poema inédito de Narlan Matos, baiano que vive hoje no Novo México (EUA)

 

Os cancerianos e os livros

In Brodagem, Escritores, Livros, amigos, evento literário on Julho 4, 2009 at 4:44 pm

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Mais uma leva de livros da P 55, de Claudius Portugal, será lançada no dia 7, terça, a partir das 19 horas, na Tom do Saber (”Ananke”, de Marcos Dias,  “As receitas de Mme Castro”, de Aninha Franco, e “Ao longo da linha amarela”, de João Filho). E o início da semana traz uma leva de cancerianos mudando de idade. No dia 7, jantar de aniversário de 40 anos de um dos meus amigos mais queridos, Adalberto Carvalho. Na segunda, a minha irmã caçula, Paula Alice, faz 29 anos (vale uma cerveja no Red River). E, na mesma data, Cláudia, Nanda e Dona Didi (irmã, sobrinha e mãe de Érica). Vamos festejar as três amanhã, domingo, de uma vez só. E tudo isso para dizer que só volto aqui no dia 8, quarta, a menos que um poema surja imperativo.

O coração na chuva

In poesia on Julho 3, 2009 at 7:35 pm

chuvas

Você apenas finge que sente.
Mas que tarde cinza
é essa que traz nos olhos?
Perita em perguntas-disfarce,
deixo a outra entretida
em desarmar armadilhas,
organizar as cores do cubo
mágico, montar o móbile.
Ah, sou poeta, sabe?
Por isso é que sei criar
esses efeitos sentimentais
a partir do ridículo. Não diz
nada, apenas finge que sente,
que esqueceu de escrever
a carta de despedida,
perdeu as chaves e chove.
Ah, eu sei que não chove.
Agora deixa que eu finjo.